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quinta-feira, 17 de abril de 2014

POEMA INVADIDO POR ROMANOS de Juan Manuel Roca



Os romanos eram maliciosos.

Encheram a Europa de ruínas
Conjurados com o tempo.

Interessava-lhes o futuro,
Os traços mais do que as pegadas.

Os romanos, Cassandra, eram manhosos.

Não imaginaram o Aqueduto de Segóvia
Como uma conduta de água e de luz.
Pensaram-no como vestígio,
Como um absorto passado.

Semearam de edifícios musgosos a Europa,
De estátuas acéfalas
Engolidas pela glória de Roma.

Não fizeram o Coliseu
Para que os tigres devorassem
Por capricho seu os cristãos,
tão pouco apetecíveis,
Nem para ver trespassados
Como aperitivos do inferno
os exércitos de Espártaco.

Pensaram a sua ruína, uma ruína proporcional
à sombra mordida pelo sol que agoniza.

O meu amigo Dino Campana
Poderia ter saltado à jugular
De um dos seus deuses de mármore.

Os romanos dão muito em que pensar.

Por exemplo,
Num cavalo de bronze
da Piazza Bianca.
No momento de o restaurar,
Ao assomarem à boca aberta,
Encontraram no ventre
esqueletos de pombas.

Como o teu amor,
Que se torna ruína
Quando mais o construo.

O tempo é romano.



de Juan Manuel Roca traduzido por Nuno Júdice in http://bibliotecariodebabel.com/

domingo, 23 de março de 2014

A ponte suspensa

Cada manhã
O rio desponta obcecante.

A tabuleiro estendido, de braços abertos
Serve uma dose mágica de ebulição.

As combustões eletrificam os ares.
E os momentos em suspensão
São dores, espasmos de coisas
Que ainda não são.


                   Paulo José Borges

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                                                              Rui Cavaleiro

sexta-feira, 21 de março de 2014

A felicidade (no dia da poesia)

A felicidade
Cai
No lado errado
Da Sorte.

A felicidade
Cai
Longe das minhas mãos.

A felicidade
despenha-se
entre as árvores

toda a gente se queixa.


                Sam Shepard

segunda-feira, 17 de março de 2014

Reboot

At the end of the day, como diz o outro,
O que há  para nós?

Um cansaço baço, denso, propenso a distensões,
dissensões do ser.

Por inércia não se tem pressa, por inépcia
Se descarrega o tónus, o alor.

Se não se sopesa, se não se vigia, ora...
Monitor going to sleep.


                                  Paulo José Borges

domingo, 9 de março de 2014

Poema com sabor d’agora e pedaços de futuro

e uma pitada de Verão




Vais ouvir se te deres
Conta
Meio avião a ancorar nas rochas,
Meio circo de ilusionistas acrobatas
De segredos,
Meio oceano a estourar-te
Com as ondas nas costas
Onde páras a pensar.

Vais percorrer se te deres
Tempo
Meio sentimento bem voraz
A formigar-te no peito,
Tempestades também às metades
A perfurar-te o impaciente momento
Onde estás a amar.

Vais saborear com todos os dentes
Os frutos sãos e doentes
E agarrar com todas as unhas
Tudo o que te passe pela frente.
Mas de repente,
Ao recordares a stracciatella, o morango,
O chocolate ou o pistacho
Vais querer saber:
De tudo o que encontrei e que perdi
O que é que eu acho?


                            Paulo José Borges

sexta-feira, 7 de março de 2014

Júpiter, o Zeus

Eu não gosto de dar concílios
Mas abro-vos uma excepção:
Quem manda sou eu
Queirais ou não.

Bebe menos, Baco
Deixa os nautas em paz. Se quiserem
Chegar à Índia tanto te faz
Que a tua divindade t' abaste.

E tu, Vénus, não te armes em bela, citereia, serena, sereia
ou o que seja, eia!
Se Roma amas bom gosto te bafeja
Porém, to garanto
O mais nefasto dos castigos, sabe-lo bem,
É o da inveja.

Que não me acordeis, sonegando-me lençóis
Em cadeia.
Os lusos não nos merecem austeros.
Que voguem, naufraguem como se não
Existamos.

Ide, eu vos reconcilio.

(Se for preciso)

                                                            Paulo José Borges

segunda-feira, 3 de março de 2014

De mãos dadas

Foi depois do fim das aulas.
Passaram o portão de ferro da escola
e deram as mãos
para atravessarem a rua.
E, de mãos dadas, formaram
uma corrente
tão poderosa, tão compacta,
que o trânsito teve mesmo de parar
e ficou completamente imobilizado. Não vou ceder
agora à tentação
de afirmar que assisti
à materialização de um milagre,
afinal é coisa
que deve estar sempre a acontecer,
em algum lugar, ao fim
da manhã ou da tarde, logo
depois das aulas,
dois adolescentes dão
as mãos, atravessam a rua, bloqueiam
a circulação rodoviária
de uma cidade.
Mas pensa nisso por um segundo,
pensa na força dessa corrente.
                                      Luís Filipe Parrado