O meu primeiro livro de poemas

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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Plural

                                                                           (a Fernando Pessoa)

Eu próprio de mim mesmo
Sei dois que são prisioneiros
De mais quantos se bem recordo
São milhentos.


                                Paulo José Borges

terça-feira, 10 de junho de 2014

Tanto de meu estado me acho incerto

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando;
Num' hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um' hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

                                                 Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Há dias

Há dias tinha uma história muito boa para vos
Contar.

Mas nem tudo lembra.


                          Paulo José Borges

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O efeito axo

Acho que me poderia apaixonar pelo teu
Perfume, disse ela sussurrando de soslaio.

Mas eu não estou a usar nenhum, retorqui atónito.

Eu seio.


                            Paulo José Borges

terça-feira, 29 de abril de 2014

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Four / Twenty five (esboço #40)

Abril encarnou na praça
Uma canção cravejada de flores
E o povo saiu à rua
De lágrimas em punho.

O momento respirou fundo a ganhar tempo
E acordaram todos felizes para sempre.


                     Paulo José Borges



quinta-feira, 17 de abril de 2014

POEMA INVADIDO POR ROMANOS de Juan Manuel Roca



Os romanos eram maliciosos.

Encheram a Europa de ruínas
Conjurados com o tempo.

Interessava-lhes o futuro,
Os traços mais do que as pegadas.

Os romanos, Cassandra, eram manhosos.

Não imaginaram o Aqueduto de Segóvia
Como uma conduta de água e de luz.
Pensaram-no como vestígio,
Como um absorto passado.

Semearam de edifícios musgosos a Europa,
De estátuas acéfalas
Engolidas pela glória de Roma.

Não fizeram o Coliseu
Para que os tigres devorassem
Por capricho seu os cristãos,
tão pouco apetecíveis,
Nem para ver trespassados
Como aperitivos do inferno
os exércitos de Espártaco.

Pensaram a sua ruína, uma ruína proporcional
à sombra mordida pelo sol que agoniza.

O meu amigo Dino Campana
Poderia ter saltado à jugular
De um dos seus deuses de mármore.

Os romanos dão muito em que pensar.

Por exemplo,
Num cavalo de bronze
da Piazza Bianca.
No momento de o restaurar,
Ao assomarem à boca aberta,
Encontraram no ventre
esqueletos de pombas.

Como o teu amor,
Que se torna ruína
Quando mais o construo.

O tempo é romano.



de Juan Manuel Roca traduzido por Nuno Júdice in http://bibliotecariodebabel.com/