O meu primeiro livro de poemas

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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Poeiras assentadas

Passaram vinte anos e ficou um tabuleiro de xadrez
novinho por estrear nos arrumos, perdido entre livros e trapos antigos,
vestidos para saldar.

As peças soltas ainda cerradas na caixa nunca cavalgaram como nós
em pradarias engendradas. Ficaram encavalitadas em clérigos, torres e peões
ao lado en passant.

Tivera eu recorrido a um gambito de Evans e tu toda indefesa siciliana,
ou contrapondo uma abertura Réti a ti defesa espanhola,
outras linhas escaquísticas, outros seres nós seríamos.



                        Paulo José Borges

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Iron maiden

A dor tira-nos a fome
É a melhor dieta

A dor depura-nos as lágrimas
E sais

A dor macera-nos as vísceras
E adelgaça-nos os lamentos

A dor é uma polícia secreta que
Se esmera em não deixar marcas

A dor
          mece.


                               Paulo José Borges

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Solo lunar (this is not a trick)


Abriste uma cratera em mim
Vazia como um abraço desfeito
Lá dentro sinto-me vago e incerto
E nado ostensivamente sem efeito.

Bem queria ser astronauta
Que pudesse viajar em câmara lenta
E com argamassa densa
Tapar este abismo que desalenta.

Choro convulsivamente
E a imagem no ecrã é pouco evidente
A Terra fugiu de mim
E este buraco negro chegou ao fim.

             Paulo José Borges




desenho de Rui Cavaleiro

terça-feira, 28 de abril de 2015

Kodak

O pai à direita do sol
(o sol estava no centro - é incrível)
A mãe à esquerda parecia uma
Nebulosa indistinta
O filho abaixo como se fosse uma rola ou
Quase um espectro

O meu tio nunca entendeu que não se podem tirar
Fotografias à contraluz

Valha-me Deus


                    Paulo José Borges

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Four / Twenty Five (esboço #41)

Abril encarnou na praça
Uma canção cravejada de flores
E o povo saiu à rua
De lágrimas em punho.

O momento respirou fundo a ganhar tempo
E acordaram todos felizes para sempre.


                     Paulo José Borges

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Abril antes de Abril

Com mãos se faz a paz se faz a guerra
Com mãos tudo se faz e se desfaz
Com mãos se faz o poema ─ e são de terra.
Com mãos se faz a guerra ─ e são a paz.


Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedra estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.



manuel alegre
o canto e as armas

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

História de desembalar

Nessa altura todos acordaram
Felizes para sempre.

Tudo não tinha passado de um sonho.


                        Paulo José Borges