O meu primeiro livro de poemas

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domingo, 20 de setembro de 2015

Mascarada

Dou por mim
Numa fase em que
Cada rosto com que me cruzo
Me parece familiar.

Felizes, cansados, irados, todos conhecidos
Em tese.
Arquétipos do meu passado.

Mas na verdade
Se os interrogo
Ninguém me conhece
Ninguém.

Nem mesmo tu.

                         Paulo José Borges

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Vasco da Gama

 
Que havia de oferecer ao momento?
Grandes vagas me acompanharam por um tempo
Monstros marinhos de largos focinhos
Ventos amainantes de sono de elefantes.

E as memórias que levava comigo?
Deuses vastos me levaram ao perigo
A países tamanhos de corpos castanhos
A trevas distantes de mínimos e gigantes.

Mas o leme agarrou-se a mim como amante –
– Astrolábio seguro mostrava-me o céu
Galgámos terreno com passo confiante.

E a mais nobre fortuna que Deus nos deu?
Com mais vigor fomos adiante
Do mundo todo levantámos o véu.

                                                Paulo José Borges

                                                                         
desenho de Rui Cavaleiro

sábado, 22 de agosto de 2015

Cinco meses antes


Até já.
Gostei muito de te conhecer
Vida da minha vida.
Mas antes de ires diz-me a saída.



                            Paulo José Borges

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Poeiras assentadas

Passaram vinte anos e ficou um tabuleiro de xadrez
novinho por estrear nos arrumos, perdido entre livros e trapos antigos,
vestidos para saldar.

As peças soltas ainda cerradas na caixa nunca cavalgaram como nós
em pradarias engendradas. Ficaram encavalitadas em clérigos, torres e peões
ao lado en passant.

Tivera eu recorrido a um gambito de Evans e tu toda indefesa siciliana,
ou contrapondo uma abertura Réti a ti defesa espanhola,
outras linhas escaquísticas, outros seres nós seríamos.



                        Paulo José Borges

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Iron maiden

A dor tira-nos a fome
É a melhor dieta

A dor depura-nos as lágrimas
E sais

A dor macera-nos as vísceras
E adelgaça-nos os lamentos

A dor é uma polícia secreta que
Se esmera em não deixar marcas

A dor
          mece.


                               Paulo José Borges

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Solo lunar (this is not a trick)


Abriste uma cratera em mim
Vazia como um abraço desfeito
Lá dentro sinto-me vago e incerto
E nado ostensivamente sem efeito.

Bem queria ser astronauta
Que pudesse viajar em câmara lenta
E com argamassa densa
Tapar este abismo que desalenta.

Choro convulsivamente
E a imagem no ecrã é pouco evidente
A Terra fugiu de mim
E este buraco negro chegou ao fim.

             Paulo José Borges




desenho de Rui Cavaleiro

terça-feira, 28 de abril de 2015

Kodak

O pai à direita do sol
(o sol estava no centro - é incrível)
A mãe à esquerda parecia uma
Nebulosa indistinta
O filho abaixo como se fosse uma rola ou
Quase um espectro

O meu tio nunca entendeu que não se podem tirar
Fotografias à contraluz

Valha-me Deus


                    Paulo José Borges