sábado, 3 de setembro de 2016
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
A curva do amor (lido por Rui Cavaleiro)
#MestreRabiscador #ACurvaDoAmor @Paulborgmeister pic.twitter.com/zhGN50TZ9y
— Rui Cavaleiro (@Rui_Cavaleiro_) 29 de agosto de 2016
A curva do amor
O amor quando acordou de manhã foi dar uma curva
Andou de dança tentacular como se tivesse oito vidas.
Deixou veneno polvilhado em todo o corpo do ser amado.
Tão grande era sua persistência que com mil olhos
Aumentava a sua aderência.
Mas a mulher no final
Só viu pó no fim do sonho. Ou como se diz em espanhol
Polvo.
Andou de dança tentacular como se tivesse oito vidas.
Deixou veneno polvilhado em todo o corpo do ser amado.
Tão grande era sua persistência que com mil olhos
Aumentava a sua aderência.
Mas a mulher no final
Só viu pó no fim do sonho. Ou como se diz em espanhol
Polvo.
Paulo José Borges
desenho de Rui Cavaleiro
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
Objects in the mirror are closer than they appear
(Poema do retrovisor)
Vias sinuosas (long and winding roads),
Surgem-nos em patamares, arcades, que temos de completar para
Sermos homens.
Mas não é uma partida que nos salva, nem a fuga com a barriga para frente
Que nos impele a bater recordes.
É saber ir ao lado esquerdo da estrada só as vezes necessárias para
Com toda a minúcia ultrapassar as pedras que as retinas cansadas
Nos semeiam nas artérias.
E, por fim, intuímos que olhar para trás, estúpido Orfeu,
Engana-nos toda a saída.
Paulo José Borges
Vias sinuosas (long and winding roads),
Surgem-nos em patamares, arcades, que temos de completar para
Sermos homens.
Mas não é uma partida que nos salva, nem a fuga com a barriga para frente
Que nos impele a bater recordes.
É saber ir ao lado esquerdo da estrada só as vezes necessárias para
Com toda a minúcia ultrapassar as pedras que as retinas cansadas
Nos semeiam nas artérias.
E, por fim, intuímos que olhar para trás, estúpido Orfeu,
Engana-nos toda a saída.
Paulo José Borges
desenho de Rui Cavaleiro
quarta-feira, 22 de junho de 2016
Poema do beijo
Começou por me dizer que o seu caso era simples – e que se chamava Macário...
Eça de Queirós in «Singularidades de uma rapariga loira»
O meu caso deveria ser simples, embora não me chame
Macário.
Encontrei a rapariga loira despida nos ombros e, sem pestanejar,
- Logo eu que de hesitações me alimento -
Aflorei um dos seus bronzeados ombros com meus lábios diligentes.
Simples.
Não o fiz inocentemente, não o fiz dolosamente. Só simplesmente.
Compreendi mais tarde que a marca do meu inexistente batom
Não lhe saía nem por nada. Uma ferida que nenhum unguento
Cicatrizava.
O chão não tremera, as borboletas não esvoaçaram,
Mas a sua reação foi tão singular que acreditei que aquele beijo sozinho não ia
Ficar.
Anos se passaram (aqui uma ligeira prolepse). Poucos mais beijos foram dados
E levados, mas tatuados ficaram em meus ossos de poeta ultra-romântico.
Se eu pudesse roubava-lhe mais alguns deles, que de mim fizeram cleptomaníaco.
Mas sei que nunca me perdoará, quando em desvario lhe disse:
Vai-te! Vai-te.
Paulo José Borges
Rui Cavaleiro
sexta-feira, 29 de abril de 2016
Poema do Tupperware
“Um homem tão grande
tem tudo o que quer”
in Poema do fecho éclair de António Gedeão
Abro gavetas, abro gavetões, abro portas
E de olhos esbugalhados saltitam, pululam caixas, caixinhas, tampas, tampinhas.
Azuis clarinhas, laranjas, amarelas, vermelhas, caixas novas, caixas velhas,
Caixas de plástico - de pvc, saltam com molas por todo lado, até no wc.
Filipe segundo tinha talheres de prata,
Só não tinha onde guardar bacalhau com nata.
Tapa tampas de tupperware
Para todas as comidas, todos os restos, para uma serventia qualquer.
Leva um pouco de bolo que sobrou, do assado que queimou,
Leva senão passo meses agoniado em plástico hermético fechado.
Pouco faltava ao grande que dormia em cama de prata maciça, Filipe, senhor do mundo.
Talvez, como a ti, apenas lhe faltasse ouvir o silêncio um só segundo.
Paulo José Borges
clica aqui para ouvires
segunda-feira, 21 de março de 2016
A história do pastor
A seguir a história do pastor.
O pastor vivia em Goinge, floresta normanda.
Era filho dos senhores da Escânia
hoje conhecedores de ciências.
Aos vinte anos sabia já
distinguir as ervas
curava com esmero os golpes do gado.
Entretinha-se com o queixo.
E todos os arroios
o conheciam de sol a sol.
Aos vinte e seis anos
casou com Dourada, a rapariga débil.
Aos trinta
viu realizar-se um sonho antigo:
receber os primos no pátio.
Abriu então cervejas
fritou amêndoas
falou pela primeira vez de nostalgia.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues
O Afastamento Está Ali Sentado
Editora: quasi
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