O meu primeiro livro de poemas

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quarta-feira, 1 de março de 2017

Poema do num sei

o humor pode ser aguda lança
o silêncio pode ser falta de respeito ou ignorância
dar-te conselhos pode ser a mais profunda arrogância

o que queres de mim afinal


                                               

                                                                Paulo José Borges

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Poema do silêncio

O que é que fiz agora?
Já meti água outra vez?

Não entendo.
Só porque quis ter o furto proibido?


                                                      Paulo José Borges




desenho de Rui Cavaleiro

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Poema das escondidinhas

... noventa e seis, noventa e sete, noventa e oito, noventa e nove, cem.
Alerta alerta: quem ficar atrás de mim fica fica fica mesmo.

Já sei onde estás. Vai ser fácil.
No armário, debaixo da cama, atrás do cortinados, na sala,
na cozinha, na casa de banho...................................
.................................................................................

Ah, estás lá fora, Espera que já te encontro.
Atrás do carro, na carrinha de caixa aberta,
nos arbustos, atrás da roupa a corar, nos tanques,
no patamar do quarto andar.....................................
.................................................................................

Já chega, estou há que tempos nisto.
Aparece. Estás a ouvir? Aparece.
Não está a ter piada. Ganhaste. Aparece.

Que rico amigo me saíste.

Alerta alerta: quem vier atrás de mim fica fica fica mesmo.

                                                                                           
                                                                                       Paulo José Borges

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Poema da porta no meio da parede

By our daylight standard he walked out of security
into darkness, danger and death.
But did he see like that?
H. G. Wells «The door in the wall»

(Era uma porta enferrujada e ela entrou). Fora um impulso,
um capricho que agora lhe poderia trazer consequências nefastas.
A porta, que ainda mostrava claros vestígios de cor verde, gemeu
como um vago lamento. Porém, ela, absorta, obstinada, avançou
com passos seguros pelo jardim bem tratado que se abria perante seus olhos.
Estivera ali, sem dúvida, um jardineiro prendado que semeara
canteiros tão arrumados.

Avançou ainda mais um pouco e, sem acreditar,
apercebeu-se de duas panteras a brincar com uma bola.
E logo sua mente sináptica reconheceu os felídeos do conto de H. G. Wells.
Estacou, aguçou a vista, a procurar o rapaz, a jovem e a senhora
que mostrara ao protagonista o livro da sua vida. Mas deles nem vislumbre.
Decidida a não desistir, depois de mal ter dado azo ao seu ímpeto inicial,
caminhou em direção à floresta plúmbea que se oferecia mais à esquerda.
Embrenhou-se, perscrutou, procurou palavras para mais tarde contar
o indizível, o incomensurável, mas sobretudo para saber como ia
acabar esta história.

                                                                                       Paulo José Borges


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Poema fotovoltaico

Vivi na rua do Sol Poente
Mas o apartamento dava para a rua Sol Nascente
A sério.

Agora avariou-se-me o termostato
Ora o sol é incandescente
Ora morde algidamente
A sério.


                                                  Paulo José Borges

domingo, 8 de janeiro de 2017

Poema da luz

«...já reparaste como as pessoas olham para nós? É porque temos uma luz.»
A Terceira Rosa, Manuel Alegre.



Por muito que me custe admitir, confessar?, já te vejo ao longe,
Beijo-te muito ao longe.
Já me impeli a partir e os passos não me tropeçam tanto.
Já te vejo, acredita, já te vejo pequenina, recém-crescida,
A sorrires com os teus melhores abraços.

Subo mais alto, uso a palma da mão para que a luz não me cegue, e estou
Cada vez mais certo: vens em missão, salvar-me com vento, despentear-me todo
E fazeres-te toda unguento.

Os meus olhos não me mentem, até porque agora os mantenho fechados,
Como noiva a duvidar até ao último momento,
E os meus átomos já se alinham todos cavalheiros,
Segurando a porta que trouxeste contigo.


                                                              Paulo José Borges

                desenho de Rui Cavaleiro
ouça aqui

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Parece um poema de Natal

[Disclaimer: texto com 28 anos de idade. Não aceitamos devoluções.]



                                           Paulo José Borges

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Poema quase bélico

Armas elmos capacetes cascos
Viseiras armas
Cotas de malha armaduras
Armas até aos dentes
Lanças fossos cadafalsos ameias
Armas teias
Armas tramas
Para que invicto não te mostres nu.



                                            Paulo José Borges

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Poema ébrio

Ia agora deliciar-vos com um poema cheio de amor
E de esperança, uma espécie de presente de Natal antecipado.
Mas bebi demais, tenho a cabeça a andar à roda.
Absinto muito.


                                           Paulo José Borges

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Poema pela metade

Sempre gostei de castelos, muralhas e ameias, princesa.
Amei-as porque enquanto escalava era a mim que eu resgatava.

Mas tu permaneceste sempre inexorável
E fingir amor é devassá-lo.

Apesar de tudo, tantos despojos depois, ainda acredito que
Podíamos ter sido felizes a meias.


                                                                    Paulo José Borges

domingo, 23 de outubro de 2016

Poema em mim menor

Eu
Eu acho, eu creio, julgo
Eu
Eu tenho a certeza, eu sei
Eu sou teu amigo, mas se estivesse no teu lugar fazia assim
Eu sei bem o que isso é
Eu já passei por isso, nem me fales

Eu não concordo, não é assim que eu vejo as coisas
Eu penso que tu não podes ser assim
Eu nem entendo por que é que te queixas

Eu sei aquilo por que estás a passar
Eu imagino o que estás a sentir
Eu vou-te ajudar
Eu

Não precisas de me agradecer.


                                                               Paulo José Borges

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Dreamtigers II

                                                                                         a Jorge Luis Borges


Os tigres, três, são
Labirintos engendrados.
Refletem-se em sonhos mal visíveis,
Deambulam amblíopes em ambíguos espelhos
De lendas, sagas e de circos
Que em criança eu cravei na memória.

Depois, fugidios, em bibliotecas de papel, babel, digo,
Os procurei, qual conjurado,
Até me voltarem de novo
Em arquétipos dourados de garras
E de mel.


                                          Paulo José Borges

Eternal Sunshine

                                                                                                                   
                                                                                                             para Suzana


A memória cresce pequenina, fraquinha,
Ou esquecida da vida que foi.
Mas cresce como águas declinadas de montanhas voadoras.

Cresce em sabedoria, em RAMS e ROMS e faz spotless backups nos
Riscos duros da vida.

A memória é lembrares-te de mim
Mesmo toda formatada ou com hard reset.

A memória é a ligação sem fios à tua bondade.


                                                   Paulo José Borges

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A curva do amor (lido por Rui Cavaleiro)

A curva do amor

O amor quando acordou de manhã foi dar uma curva
Andou de dança tentacular como se tivesse oito vidas.
Deixou veneno polvilhado em todo o corpo do ser amado.
Tão grande era sua persistência que com mil olhos
Aumentava a sua aderência.

Mas a mulher no final
Só viu pó no fim do sonho. Ou como se diz em espanhol
Polvo.


                  Paulo José Borges


desenho de Rui Cavaleiro

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Objects in the mirror are closer than they appear

                                     (Poema do retrovisor)

Vias sinuosas (long and winding roads),
Surgem-nos em patamares, arcades, que temos de completar para
Sermos homens.
Mas não é uma partida que nos salva, nem a fuga com a barriga para frente
Que nos impele a bater recordes.
É saber ir ao lado esquerdo da estrada só as vezes necessárias para
Com toda a minúcia ultrapassar as pedras que as retinas cansadas
Nos semeiam nas artérias.

E, por fim, intuímos que olhar para trás, estúpido Orfeu,
Engana-nos toda a saída.


                                                    Paulo José Borges




desenho de Rui Cavaleiro