O meu primeiro livro de poemas

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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Poema da melancolia



«E de feito, não houvera conselho, 
remedio nem esforço que me valera, 
segundo entendo, porque com fisicos, 
confessores e amigos falava, 
e nom prestava cousa.»

D. Duarte


e principalmente
                não me digas
                não fiques assim
                não me digas
                vai espairecer
                não me digas
                daqui a um ano
                vais olhar para isto
                e vais-te rir
                não me digas
                arrebita
                tens de comer

e principalmente
                não me digas
                reage por amor de Deus
                não me digas
                há tanta gente no mundo que
                não me digas
                basta
                estou cheia disto

em vez disso
                sentavas-te ao meu lado
                emprestavas-me o teu ombro
                dizias que estavas aqui
                deixavas as minhas lágrimas correr
                e só me ias chegando
                a girândola dos lenços

em vez disso
                fazias-me silêncio
                porque ao fim e ao cabo
                aquilo não se resolvia de pressão

                                                                 Paulo José Borges

segunda-feira, 22 de maio de 2017

História de uma canção

Não creias nela, não a adores, não a esperes e não a ames
Se ela alega que outro já a tem.
Não te vergues, não te contorças de dor. É tudo
Tão indigno de ti.

Larga-a, bebe mais, dorme até ao mais cruel abril.
Não deixes que se cure a doença auto-imune que trazes em ti
- La plus difficile -
A vida.


                                              Paulo José Borges

domingo, 14 de maio de 2017

Poema do Father Mckenzie

Escreve sempre escreve muito.
Envia bilhetinhos cartas missivas epístolas.
Escreve escreve redige tudo.
Envia SMS DMs melga-nos por Messenger.
Bloqueia-nos os silêncios.

Se o sal não salga
a pimenta não arde
o açúcar não adoça
o limão não amarga
escreve ainda mais.
Prega a peixe.
Não permitas que o cerco se feche.

Foge entrelinhas.
Ora ora muito por nós.
Manda-nos um fax um telex um email
um telegrama faz um telefonema
usa o telégrafo
usa o código Morse
tecla SOS com acento no ó.


                                               Paulo José Borges

para ouvires clica aqui

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Poema de ângulo inverso

Volta e meia recordo o início de um romance
em que um condutor viaja por uma estrada sinuosa.
À saída de uma curva encontra um homem desprecavido.
O homem do carro tinha tempo para travar ou para se desviar mas decidiu prosseguir.

Sinto que este acontecimento é uma espécie de metáfora da minha vida.
Só não consigo descodificá-la.
Sou quem conduz? Sou o veículo? Sou a vítima?
Sou a estrada?

Às tantas isto é tudo um grande oxímoro.


                                       Paulo José Borges

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Poema do hic et nunc

                                                                       para o Rui

Acordas, saltas da cama e logo uma 
parte de ti
ficou dentro do quarto.

Sais a correr aos pedaços, comes pelo caminho aos bocados,
entras para o comboio, as portas trancam-se e
parte de ti
ficou no cais.
(Esta até a mim me doeu).

Fragmentas-te no sono, enquanto dormitas no trajecto, mas
parte de ti
ficou pendurada na rapariga que, por incrível que pareça,
estava a ler um livro.

Chegas ao trabalho, mas
parte de ti
foi lá ter, a meter a fralda p´ra dentro, 
com a barba por fazer.

..........................................................

Regressas. A tua voz ficou lá para trás;
não te trouxeste todo.
Avançaste o dia inteiro a mais de 24 frames 
por segundo.
Não te admires se ao espelho deres conta 
de te faltarem não sei quantos píxeis.

Ainda não acabaste de chegar.
Parte de ti                     ficar.


                                                                     Paulo José Borges

Clica aqui para ouvires



terça-feira, 25 de abril de 2017

Four / Twenty Five (esboço #44)


Abril encarnou na praça
uma canção cravejada de flores
e o povo saiu à rua
de lágrimas em punho.

O momento respirou fundo a ganhar tempo
e acordaram todos felizes para sempre.


                                     Paulo José Borges

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Poema do Carcereiro

mordo os meu lábios com força
beijo como a Florbela mas a mim mesmo.

amordaço-me manieto os meus melhores
intentos
algemo-me agrilhoo-me
coloco bolas pesadas nos pés
sou cativo fechado por dentro.

uso colete de forças
correntes e mergulho de cabeça para baixo:
Houdini de trazer por casa com síndrome de
Estocolmo cercado por dentro.

que soco poderoso no estômago só de
imaginar o rio depois do fosso.

falando verdade
depois de cada passo à bebé olho para trás
e orgulho-me de cada cratera cavada
com desvelo.

o passo seguinte? não sei.
minha mãe, dá licença?

                                                                       Paulo José Borges

(para ouvir clique aqui.)