gosto que venha o calor
só para te ver assim na praia
em lânguido abandono
a tez dourada o corpo untado
um ócio todo estendido
podia continuar mais estas linhas
mas tenho receio que fique um pouco
umbíguo
Paulo José Borges
sexta-feira, 11 de agosto de 2017
terça-feira, 18 de julho de 2017
Poema do recado dos deuses
para Alice Vieira
Será que eu sonho?
Será que eu choro?
Sou o rei sou o bobo
Tenho manto ceptro e coroa
Toucinho favas e boroa
Tenho caule flor espinho
Tenho chibata pancada pelourinho
Tenho o sol o ar o sal
Tenho razão tu é que vês mal
Confundi farinha com moinhos
Calcaste o sal e os carinhos.
Será que eu sonho?
Será que eu choro?
Sou um bobo sou real
Quanto custa a lua?
Quanto pesa o amor?
O que é que estou a pensar?
- Que os sonhos são pecados dos deuses.
Tiraste-me as palavras da boca.
Paulo José Borges
Será que eu sonho?
Será que eu choro?
Sou o rei sou o bobo
Tenho manto ceptro e coroa
Toucinho favas e boroa
Tenho caule flor espinho
Tenho chibata pancada pelourinho
Tenho o sol o ar o sal
Tenho razão tu é que vês mal
Confundi farinha com moinhos
Calcaste o sal e os carinhos.
Será que eu sonho?
Será que eu choro?
Sou um bobo sou real
Quanto custa a lua?
Quanto pesa o amor?
O que é que estou a pensar?
- Que os sonhos são pecados dos deuses.
Tiraste-me as palavras da boca.
Paulo José Borges
domingo, 9 de julho de 2017
Poema das doze casas
Nas minhas traseiras há
doze casas. Doze lares depois da fábrica abandonada.
Há a senhora que alimenta gaivotas como baratas
que me roubam o sono e pombos.
Alimenta gatos por uma tábua que lhes serve de ponte
levadiça e plantas.
Há a que recebe a família para almoços
buliçosos no pátio.
Há a que por cima atira sopas de pão às aves.
Há os que plantam ervas e legumes em vasos.
Há os cães.
Há a jovem miss Torso
mas com marido, ágil como uma bailarina.
Há a que vem fumar nos intervalos de um
lar de terceira idade ilegal.
(Há os outros que não contam para esta história.)
Há doze fogos sempre acesos nas traseiras
cujas chaminés não funcionam,
como saídas de emergência desativadas.
E frequentemente há o sol
cor de fogo quando foge.
Há por fim a chaminé de outra antiga fábrica
longa como uma interminável dor
que me aparta do meu afastamento.
Paulo José Borges
clica aqui para ouvires
doze casas. Doze lares depois da fábrica abandonada.
Há a senhora que alimenta gaivotas como baratas
que me roubam o sono e pombos.
Alimenta gatos por uma tábua que lhes serve de ponte
levadiça e plantas.
Há a que recebe a família para almoços
buliçosos no pátio.
Há a que por cima atira sopas de pão às aves.
Há os que plantam ervas e legumes em vasos.
Há os cães.
Há a jovem miss Torso
mas com marido, ágil como uma bailarina.
Há a que vem fumar nos intervalos de um
lar de terceira idade ilegal.
(Há os outros que não contam para esta história.)
Há doze fogos sempre acesos nas traseiras
cujas chaminés não funcionam,
como saídas de emergência desativadas.
E frequentemente há o sol
cor de fogo quando foge.
Há por fim a chaminé de outra antiga fábrica
longa como uma interminável dor
que me aparta do meu afastamento.
Paulo José Borges
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terça-feira, 4 de julho de 2017
Poema quase emotivo
Pirâmides, Ópera, Louvre
Rivoli, Tulherias, mas
Palais Royal.
Da janela via-se em linha reta o
Sagrado Coração ao alto.
Serviam-se a si próprios em frente no Monoprix
Chez Paul.
Champs Élysées, Étoile, Arco do Triunfo,
Depois Orsay e outra vez Orsay como se fosse
uma estação central junto ao Sena.
Lafayette, Samaritaine, Halles
Mas muito Capucines, Madeleine, Vandoma.
Montparnasse patética ao largo de Eiffel e muito ao longe
la Défense à esquerda e
à direita Mitterrand.
Austerlitz, Bir-Hakeim. Sebastopol,
La Motte-Picquet.
Napoleão inválido
Dali, Picasso, Carnavalet, Villette, Marais, Vosges, Hugo,
Sorbonne, Luxemburgo
E Orsay.
E do outro lado Joana d' Arc a acenar aos ciclistas
Charles de Gaulle, Orly.
Paulo José Borges
Rivoli, Tulherias, mas
Palais Royal.
Da janela via-se em linha reta o
Sagrado Coração ao alto.
Serviam-se a si próprios em frente no Monoprix
Chez Paul.
Champs Élysées, Étoile, Arco do Triunfo,
Depois Orsay e outra vez Orsay como se fosse
uma estação central junto ao Sena.
Lafayette, Samaritaine, Halles
Mas muito Capucines, Madeleine, Vandoma.
Montparnasse patética ao largo de Eiffel e muito ao longe
la Défense à esquerda e
à direita Mitterrand.
Austerlitz, Bir-Hakeim. Sebastopol,
La Motte-Picquet.
Napoleão inválido
Dali, Picasso, Carnavalet, Villette, Marais, Vosges, Hugo,
Sorbonne, Luxemburgo
E Orsay.
E do outro lado Joana d' Arc a acenar aos ciclistas
Charles de Gaulle, Orly.
Paulo José Borges
sexta-feira, 26 de maio de 2017
Poema da melancolia
«E de feito, não houvera conselho,
remedio nem esforço que me valera,
segundo entendo, porque com fisicos,
confessores e amigos falava,
e nom prestava cousa.»
D. Duarte
e principalmente
não me digas
não fiques assim
não me digas
vai espairecer
não me digas
daqui a um ano
vais olhar para isto
e vais-te rir
não me digas
arrebita
tens de comer
e principalmente
não me digas
reage por amor de Deus
não me digas
há tanta gente no mundo que
não me digas
basta
estou cheia disto
em vez disso
sentavas-te ao meu lado
emprestavas-me o teu ombro
dizias que estavas aqui
deixavas as minhas lágrimas correr
e só me ias chegando
a girândola dos lenços
em vez disso
fazias-me silêncio
porque ao fim e ao cabo
aquilo não se resolvia de pressão
Paulo José Borges
segunda-feira, 22 de maio de 2017
História de uma canção
Não creias nela, não a adores, não a esperes e não a ames
Se ela alega que outro já a tem.
Não te vergues, não te contorças de dor. É tudo
Tão indigno de ti.
Larga-a, bebe mais, dorme até ao mais cruel abril.
Não deixes que se cure a doença auto-imune que trazes em ti
- La plus difficile -
A vida.
Paulo José Borges
Se ela alega que outro já a tem.
Não te vergues, não te contorças de dor. É tudo
Tão indigno de ti.
Larga-a, bebe mais, dorme até ao mais cruel abril.
Não deixes que se cure a doença auto-imune que trazes em ti
- La plus difficile -
A vida.
Paulo José Borges
domingo, 14 de maio de 2017
Poema do Father Mckenzie
Escreve sempre escreve muito.
Envia bilhetinhos cartas missivas epístolas.
Escreve escreve redige tudo.
Envia SMS DMs melga-nos por Messenger.
Bloqueia-nos os silêncios.
Se o sal não salga
a pimenta não arde
o açúcar não adoça
o limão não amarga
escreve ainda mais.
Prega a peixe.
Não permitas que o cerco se feche.
Foge entrelinhas.
Ora ora muito por nós.
Manda-nos um fax um telex um email
um telegrama faz um telefonema
usa o telégrafo
usa o código Morse
tecla SOS com acento no ó.
Paulo José Borges
para ouvires clica aqui
Envia bilhetinhos cartas missivas epístolas.
Escreve escreve redige tudo.
Envia SMS DMs melga-nos por Messenger.
Bloqueia-nos os silêncios.
Se o sal não salga
a pimenta não arde
o açúcar não adoça
o limão não amarga
escreve ainda mais.
Prega a peixe.
Não permitas que o cerco se feche.
Foge entrelinhas.
Ora ora muito por nós.
Manda-nos um fax um telex um email
um telegrama faz um telefonema
usa o telégrafo
usa o código Morse
tecla SOS com acento no ó.
Paulo José Borges
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