domingo, 24 de setembro de 2017

Poema de quando entro em casa

A verdade é que já não consigo suster
o vosso olhar de censura quando acabo de
entrar no apartamento.
Emoldurados olhais-me em silêncio que é o que me inquieta mais
e perguntais-me sempre em tom magoado:
- Foi para isto que te engendramos?
Ou em estrangeiro:
- Is this your best shot?

Pois, lamento mas vou ter de vos guardar num armário
numa caixa.
Eu prometo que vos embrulho com cuidado
protejo o vidro da moldura e
e garanto que estareis sempre comigo muito mais do que
quando não pegava no telefone.
Mas entendam que já não consigo ver-me no espelho duplicado das vossas
fotografias e ficar sempre a perder na comparação.

Sim, também acontece adivinhar-vos as dúvidas
as descrenças, o pânico, as insónias tão fluorescentes quanto as minhas.

Mas pronto tem de ser.
Também ninguém entra aqui.
Ninguém me censurará a insensibilidade de arquivar
entes queridos num armário já sobrelotado.


                                                                 Paulo José Borges


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poema reclinado

gosto que venha o calor
só para te ver assim na praia
em lânguido abandono

a tez dourada o corpo untado
um ócio todo estendido

podia continuar mais estas linhas
mas tenho receio que fique um pouco
umbíguo


                                               Paulo José Borges

terça-feira, 18 de julho de 2017

Poema do recado dos deuses

                                                                                                              para Alice Vieira

Será que eu sonho?
Será que eu choro?

Sou o rei sou o bobo
Tenho manto ceptro e coroa
Toucinho favas e boroa
Tenho caule flor                  espinho
Tenho chibata pancada pelourinho
Tenho o sol o ar                       o sal
Tenho razão tu é que vês mal
Confundi farinha com moinhos
Calcaste o sal e os carinhos.

Será que eu sonho?
Será que eu choro?

Sou um bobo sou real
Quanto custa a lua?
Quanto pesa o amor?
O que é que estou a pensar?
- Que os sonhos são pecados dos deuses.

Tiraste-me as palavras da boca.


                                                    Paulo José Borges

domingo, 9 de julho de 2017

Poema das doze casas

Nas minhas traseiras há
doze casas. Doze lares depois da fábrica abandonada.
Há a senhora que alimenta gaivotas como baratas
que me roubam o sono e pombos.
Alimenta gatos por uma tábua que lhes serve de ponte
levadiça e plantas.
Há a que recebe a família para almoços
buliçosos no pátio.
Há a que por cima atira sopas de pão às aves.
Há os que plantam ervas e legumes em vasos.
Há os cães.
Há a jovem miss Torso
mas com marido, ágil como uma bailarina.
Há a que vem fumar nos intervalos de um
lar de terceira idade ilegal.
(Há os outros que não contam para esta história.)

Há doze fogos sempre acesos nas traseiras
cujas chaminés não funcionam,
como saídas de emergência desativadas.
E frequentemente há o sol
cor de fogo quando foge.
Há por fim a chaminé de outra antiga fábrica
longa como uma interminável dor
que me aparta do meu afastamento.


                                                              Paulo José Borges

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terça-feira, 4 de julho de 2017

Poema quase emotivo

Pirâmides, Ópera, Louvre
Rivoli, Tulherias, mas
Palais Royal.
Da janela via-se em linha reta o
Sagrado Coração ao alto.
Serviam-se a si próprios em frente no Monoprix
Chez Paul.
Champs Élysées, Étoile, Arco do Triunfo,
Depois Orsay e outra vez Orsay como se fosse
uma estação central junto ao Sena.
Lafayette, Samaritaine, Halles
Mas muito Capucines, Madeleine, Vandoma.
Montparnasse patética ao largo de Eiffel e muito ao longe
la Défense à esquerda e
à direita Mitterrand.
Austerlitz, Bir-Hakeim. Sebastopol,
La Motte-Picquet.
Napoleão inválido
Dali, Picasso, Carnavalet, Villette, Marais, Vosges, Hugo,
Sorbonne, Luxemburgo
E Orsay.
E do outro lado Joana d' Arc a acenar aos ciclistas
Charles de Gaulle, Orly.



                                                                Paulo José Borges





sexta-feira, 26 de maio de 2017

Poema da melancolia



«E de feito, não houvera conselho, 
remedio nem esforço que me valera, 
segundo entendo, porque com fisicos, 
confessores e amigos falava, 
e nom prestava cousa.»

D. Duarte


e principalmente
                não me digas
                não fiques assim
                não me digas
                vai espairecer
                não me digas
                daqui a um ano
                vais olhar para isto
                e vais-te rir
                não me digas
                arrebita
                tens de comer

e principalmente
                não me digas
                reage por amor de Deus
                não me digas
                há tanta gente no mundo que
                não me digas
                basta
                estou cheia disto

em vez disso
                sentavas-te ao meu lado
                emprestavas-me o teu ombro
                dizias que estavas aqui
                deixavas as minhas lágrimas correr
                e só me ias chegando
                a girândola dos lenços

em vez disso
                fazias-me silêncio
                porque ao fim e ao cabo
                aquilo não se resolvia de pressão

                                                                 Paulo José Borges

segunda-feira, 22 de maio de 2017

História de uma canção

Não creias nela, não a adores, não a esperes e não a ames
Se ela alega que outro já a tem.
Não te vergues, não te contorças de dor. É tudo
Tão indigno de ti.

Larga-a, bebe mais, dorme até ao mais cruel abril.
Não deixes que se cure a doença auto-imune que trazes em ti
- La plus difficile -
A vida.


                                              Paulo José Borges