há versos teimosos
como raízes de árvores que levantam a calçada
e te alteram todo o passeio.
Paulo José Borges
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domingo, 19 de novembro de 2017
sábado, 18 de novembro de 2017
Poema da baliza aberta
[versão soft]
Isolaram-te com um passe a rasgar, meu.
(O número 10 da tua equipa é um jogador
de antologia.)
Quase nem precisas de ajeitar a bola,
está ali à tua mercê,
de graça.
Vais ter a lata de simular falta só porque o central
te tocou de raspão? Vais tentar arrancar-lhe o vermelho?
Ou vais fazer aquilo para que te convocaram?
Mete a bola lá dentro!
Quantas equações matemáticas te faltam ainda,
quantos silogismos e sofismas?
Mete-a lá dentro nem que o estádio esteja completamente vazio.
Não me lixes, carago!
domingo, 24 de setembro de 2017
Poema de quando entro em casa
A verdade é que já não consigo suster
o vosso olhar de censura quando acabo de
entrar no apartamento.
Emoldurados olhais-me em silêncio que é o que me inquieta mais
e perguntais-me sempre em tom magoado:
- Foi para isto que te engendramos?
Ou em estrangeiro:
- Is this your best shot?
Pois, lamento mas vou ter de vos guardar num armário
numa caixa.
Eu prometo que vos embrulho com cuidado
protejo o vidro da moldura e
e garanto que estareis sempre comigo muito mais do que
quando não pegava no telefone.
Mas entendam que já não consigo ver-me no espelho duplicado das vossas
fotografias e ficar sempre a perder na comparação.
Sim, também acontece adivinhar-vos as dúvidas
as descrenças, o pânico, as insónias tão fluorescentes quanto as minhas.
Mas pronto tem de ser.
Também ninguém entra aqui.
Ninguém me censurará a insensibilidade de arquivar
entes queridos num armário já sobrelotado.
Paulo José Borges
o vosso olhar de censura quando acabo de
entrar no apartamento.
Emoldurados olhais-me em silêncio que é o que me inquieta mais
e perguntais-me sempre em tom magoado:
- Foi para isto que te engendramos?
Ou em estrangeiro:
- Is this your best shot?
Pois, lamento mas vou ter de vos guardar num armário
numa caixa.
Eu prometo que vos embrulho com cuidado
protejo o vidro da moldura e
e garanto que estareis sempre comigo muito mais do que
quando não pegava no telefone.
Mas entendam que já não consigo ver-me no espelho duplicado das vossas
fotografias e ficar sempre a perder na comparação.
Sim, também acontece adivinhar-vos as dúvidas
as descrenças, o pânico, as insónias tão fluorescentes quanto as minhas.
Mas pronto tem de ser.
Também ninguém entra aqui.
Ninguém me censurará a insensibilidade de arquivar
entes queridos num armário já sobrelotado.
Paulo José Borges
sexta-feira, 11 de agosto de 2017
Poema reclinado
gosto que venha o calor
só para te ver assim na praia
em lânguido abandono
a tez dourada o corpo untado
um ócio todo estendido
podia continuar mais estas linhas
mas tenho receio que fique um pouco
umbíguo
Paulo José Borges
só para te ver assim na praia
em lânguido abandono
a tez dourada o corpo untado
um ócio todo estendido
podia continuar mais estas linhas
mas tenho receio que fique um pouco
umbíguo
Paulo José Borges
terça-feira, 18 de julho de 2017
Poema do recado dos deuses
para Alice Vieira
Será que eu sonho?
Será que eu choro?
Sou o rei sou o bobo
Tenho manto ceptro e coroa
Toucinho favas e boroa
Tenho caule flor espinho
Tenho chibata pancada pelourinho
Tenho o sol o ar o sal
Tenho razão tu é que vês mal
Confundi farinha com moinhos
Calcaste o sal e os carinhos.
Será que eu sonho?
Será que eu choro?
Sou um bobo sou real
Quanto custa a lua?
Quanto pesa o amor?
O que é que estou a pensar?
- Que os sonhos são pecados dos deuses.
Tiraste-me as palavras da boca.
Paulo José Borges
Será que eu sonho?
Será que eu choro?
Sou o rei sou o bobo
Tenho manto ceptro e coroa
Toucinho favas e boroa
Tenho caule flor espinho
Tenho chibata pancada pelourinho
Tenho o sol o ar o sal
Tenho razão tu é que vês mal
Confundi farinha com moinhos
Calcaste o sal e os carinhos.
Será que eu sonho?
Será que eu choro?
Sou um bobo sou real
Quanto custa a lua?
Quanto pesa o amor?
O que é que estou a pensar?
- Que os sonhos são pecados dos deuses.
Tiraste-me as palavras da boca.
Paulo José Borges
domingo, 9 de julho de 2017
Poema das doze casas
Nas minhas traseiras há
doze casas. Doze lares depois da fábrica abandonada.
Há a senhora que alimenta gaivotas como baratas
que me roubam o sono e pombos.
Alimenta gatos por uma tábua que lhes serve de ponte
levadiça e plantas.
Há a que recebe a família para almoços
buliçosos no pátio.
Há a que por cima atira sopas de pão às aves.
Há os que plantam ervas e legumes em vasos.
Há os cães.
Há a jovem miss Torso
mas com marido, ágil como uma bailarina.
Há a que vem fumar nos intervalos de um
lar de terceira idade ilegal.
(Há os outros que não contam para esta história.)
Há doze fogos sempre acesos nas traseiras
cujas chaminés não funcionam,
como saídas de emergência desativadas.
E frequentemente há o sol
cor de fogo quando foge.
Há por fim a chaminé de outra antiga fábrica
longa como uma interminável dor
que me aparta do meu afastamento.
Paulo José Borges
clica aqui para ouvires
doze casas. Doze lares depois da fábrica abandonada.
Há a senhora que alimenta gaivotas como baratas
que me roubam o sono e pombos.
Alimenta gatos por uma tábua que lhes serve de ponte
levadiça e plantas.
Há a que recebe a família para almoços
buliçosos no pátio.
Há a que por cima atira sopas de pão às aves.
Há os que plantam ervas e legumes em vasos.
Há os cães.
Há a jovem miss Torso
mas com marido, ágil como uma bailarina.
Há a que vem fumar nos intervalos de um
lar de terceira idade ilegal.
(Há os outros que não contam para esta história.)
Há doze fogos sempre acesos nas traseiras
cujas chaminés não funcionam,
como saídas de emergência desativadas.
E frequentemente há o sol
cor de fogo quando foge.
Há por fim a chaminé de outra antiga fábrica
longa como uma interminável dor
que me aparta do meu afastamento.
Paulo José Borges
clica aqui para ouvires
terça-feira, 4 de julho de 2017
Poema quase emotivo
Pirâmides, Ópera, Louvre
Rivoli, Tulherias, mas
Palais Royal.
Da janela via-se em linha reta o
Sagrado Coração ao alto.
Serviam-se a si próprios em frente no Monoprix
Chez Paul.
Champs Élysées, Étoile, Arco do Triunfo,
Depois Orsay e outra vez Orsay como se fosse
uma estação central junto ao Sena.
Lafayette, Samaritaine, Halles
Mas muito Capucines, Madeleine, Vandoma.
Montparnasse patética ao largo de Eiffel e muito ao longe
la Défense à esquerda e
à direita Mitterrand.
Austerlitz, Bir-Hakeim. Sebastopol,
La Motte-Picquet.
Napoleão inválido
Dali, Picasso, Carnavalet, Villette, Marais, Vosges, Hugo,
Sorbonne, Luxemburgo
E Orsay.
E do outro lado Joana d' Arc a acenar aos ciclistas
Charles de Gaulle, Orly.
Paulo José Borges
Rivoli, Tulherias, mas
Palais Royal.
Da janela via-se em linha reta o
Sagrado Coração ao alto.
Serviam-se a si próprios em frente no Monoprix
Chez Paul.
Champs Élysées, Étoile, Arco do Triunfo,
Depois Orsay e outra vez Orsay como se fosse
uma estação central junto ao Sena.
Lafayette, Samaritaine, Halles
Mas muito Capucines, Madeleine, Vandoma.
Montparnasse patética ao largo de Eiffel e muito ao longe
la Défense à esquerda e
à direita Mitterrand.
Austerlitz, Bir-Hakeim. Sebastopol,
La Motte-Picquet.
Napoleão inválido
Dali, Picasso, Carnavalet, Villette, Marais, Vosges, Hugo,
Sorbonne, Luxemburgo
E Orsay.
E do outro lado Joana d' Arc a acenar aos ciclistas
Charles de Gaulle, Orly.
Paulo José Borges
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