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sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Poema suave ao toque

o que tenho de melhor
são as minhas
mãos
já não há molde
para isto

as minhas mãos
estão sempre quentes, sabes

ah pois
        não sabes


                                         Paulo José Borges


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domingo, 19 de novembro de 2017

Poema intumescido

há versos teimosos
como raízes de árvores que levantam a calçada
e te alteram todo o passeio.




                                   Paulo José Borges


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sábado, 18 de novembro de 2017

Poema da baliza aberta

[versão soft]


Isolaram-te com um passe a rasgar, meu.
(O número 10 da tua equipa é um jogador
de antologia.)
Quase nem precisas de ajeitar a bola,
está ali à tua mercê,  
de graça.

Vais ter a lata de simular falta só porque o central
te tocou de raspão? Vais tentar arrancar-lhe o vermelho?
Ou vais fazer aquilo para que te convocaram?

Mete a bola lá dentro!
Quantas equações matemáticas te faltam ainda,
quantos silogismos e sofismas?
Mete-a lá dentro nem que o estádio esteja completamente vazio.


Não me lixes, carago!



domingo, 24 de setembro de 2017

Poema de quando entro em casa

A verdade é que já não consigo suster
o vosso olhar de censura quando acabo de
entrar no apartamento.
Emoldurados olhais-me em silêncio que é o que me inquieta mais
e perguntais-me sempre em tom magoado:
- Foi para isto que te engendramos?
Ou em estrangeiro:
- Is this your best shot?

Pois, lamento mas vou ter de vos guardar num armário
numa caixa.
Eu prometo que vos embrulho com cuidado
protejo o vidro da moldura e
e garanto que estareis sempre comigo muito mais do que
quando não pegava no telefone.
Mas entendam que já não consigo ver-me no espelho duplicado das vossas
fotografias e ficar sempre a perder na comparação.

Sim, também acontece adivinhar-vos as dúvidas
as descrenças, o pânico, as insónias tão fluorescentes quanto as minhas.

Mas pronto tem de ser.
Também ninguém entra aqui.
Ninguém me censurará a insensibilidade de arquivar
entes queridos num armário já sobrelotado.


                                                                 Paulo José Borges


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poema reclinado

gosto que venha o calor
só para te ver assim na praia
em lânguido abandono

a tez dourada o corpo untado
um ócio todo estendido

podia continuar mais estas linhas
mas tenho receio que fique um pouco
umbíguo


                                               Paulo José Borges

terça-feira, 18 de julho de 2017

Poema do recado dos deuses

                                                                                                              para Alice Vieira

Será que eu sonho?
Será que eu choro?

Sou o rei sou o bobo
Tenho manto ceptro e coroa
Toucinho favas e boroa
Tenho caule flor                  espinho
Tenho chibata pancada pelourinho
Tenho o sol o ar                       o sal
Tenho razão tu é que vês mal
Confundi farinha com moinhos
Calcaste o sal e os carinhos.

Será que eu sonho?
Será que eu choro?

Sou um bobo sou real
Quanto custa a lua?
Quanto pesa o amor?
O que é que estou a pensar?
- Que os sonhos são pecados dos deuses.

Tiraste-me as palavras da boca.


                                                    Paulo José Borges

domingo, 9 de julho de 2017

Poema das doze casas

Nas minhas traseiras há
doze casas. Doze lares depois da fábrica abandonada.
Há a senhora que alimenta gaivotas como baratas
que me roubam o sono e pombos.
Alimenta gatos por uma tábua que lhes serve de ponte
levadiça e plantas.
Há a que recebe a família para almoços
buliçosos no pátio.
Há a que por cima atira sopas de pão às aves.
Há os que plantam ervas e legumes em vasos.
Há os cães.
Há a jovem miss Torso
mas com marido, ágil como uma bailarina.
Há a que vem fumar nos intervalos de um
lar de terceira idade ilegal.
(Há os outros que não contam para esta história.)

Há doze fogos sempre acesos nas traseiras
cujas chaminés não funcionam,
como saídas de emergência desativadas.
E frequentemente há o sol
cor de fogo quando foge.
Há por fim a chaminé de outra antiga fábrica
longa como uma interminável dor
que me aparta do meu afastamento.


                                                              Paulo José Borges

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terça-feira, 4 de julho de 2017

Poema quase emotivo

Pirâmides, Ópera, Louvre
Rivoli, Tulherias, mas
Palais Royal.
Da janela via-se em linha reta o
Sagrado Coração ao alto.
Serviam-se a si próprios em frente no Monoprix
Chez Paul.
Champs Élysées, Étoile, Arco do Triunfo,
Depois Orsay e outra vez Orsay como se fosse
uma estação central junto ao Sena.
Lafayette, Samaritaine, Halles
Mas muito Capucines, Madeleine, Vandoma.
Montparnasse patética ao largo de Eiffel e muito ao longe
la Défense à esquerda e
à direita Mitterrand.
Austerlitz, Bir-Hakeim. Sebastopol,
La Motte-Picquet.
Napoleão inválido
Dali, Picasso, Carnavalet, Villette, Marais, Vosges, Hugo,
Sorbonne, Luxemburgo
E Orsay.
E do outro lado Joana d' Arc a acenar aos ciclistas
Charles de Gaulle, Orly.



                                                                Paulo José Borges





sexta-feira, 26 de maio de 2017

Poema da melancolia



«E de feito, não houvera conselho, 
remedio nem esforço que me valera, 
segundo entendo, porque com fisicos, 
confessores e amigos falava, 
e nom prestava cousa.»

D. Duarte


e principalmente
                não me digas
                não fiques assim
                não me digas
                vai espairecer
                não me digas
                daqui a um ano
                vais olhar para isto
                e vais-te rir
                não me digas
                arrebita
                tens de comer

e principalmente
                não me digas
                reage por amor de Deus
                não me digas
                há tanta gente no mundo que
                não me digas
                basta
                estou cheia disto

em vez disso
                sentavas-te ao meu lado
                emprestavas-me o teu ombro
                dizias que estavas aqui
                deixavas as minhas lágrimas correr
                e só me ias chegando
                a girândola dos lenços

em vez disso
                fazias-me silêncio
                porque ao fim e ao cabo
                aquilo não se resolvia de pressão

                                                                 Paulo José Borges

segunda-feira, 22 de maio de 2017

História de uma canção

Não creias nela, não a adores, não a esperes e não a ames
Se ela alega que outro já a tem.
Não te vergues, não te contorças de dor. É tudo
Tão indigno de ti.

Larga-a, bebe mais, dorme até ao mais cruel abril.
Não deixes que se cure a doença auto-imune que trazes em ti
- La plus difficile -
A vida.


                                              Paulo José Borges

domingo, 14 de maio de 2017

Poema do Father Mckenzie

Escreve sempre escreve muito.
Envia bilhetinhos cartas missivas epístolas.
Escreve escreve redige tudo.
Envia SMS DMs melga-nos por Messenger.
Bloqueia-nos os silêncios.

Se o sal não salga
a pimenta não arde
o açúcar não adoça
o limão não amarga
escreve ainda mais.
Prega a peixe.
Não permitas que o cerco se feche.

Foge entrelinhas.
Ora ora muito por nós.
Manda-nos um fax um telex um email
um telegrama faz um telefonema
usa o telégrafo
usa o código Morse
tecla SOS com acento no ó.


                                               Paulo José Borges

para ouvires clica aqui

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Poema de ângulo inverso

Volta e meia recordo o início de um romance
em que um condutor viaja por uma estrada sinuosa.
À saída de uma curva encontra um homem desprecavido.
O homem do carro tinha tempo para travar ou para se desviar mas decidiu prosseguir.

Sinto que este acontecimento é uma espécie de metáfora da minha vida.
Só não consigo descodificá-la.
Sou quem conduz? Sou o veículo? Sou a vítima?
Sou a estrada?

Às tantas isto é tudo um grande oxímoro.


                                       Paulo José Borges

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Poema do hic et nunc

                                                                       para o Rui

Acordas, saltas da cama e logo uma 
parte de ti
ficou dentro do quarto.

Sais a correr aos pedaços, comes pelo caminho aos bocados,
entras para o comboio, as portas trancam-se e
parte de ti
ficou no cais.
(Esta até a mim me doeu).

Fragmentas-te no sono, enquanto dormitas no trajecto, mas
parte de ti
ficou pendurada na rapariga que, por incrível que pareça,
estava a ler um livro.

Chegas ao trabalho, mas
parte de ti
foi lá ter, a meter a fralda p´ra dentro, 
com a barba por fazer.

..........................................................

Regressas. A tua voz ficou lá para trás;
não te trouxeste todo.
Avançaste o dia inteiro a mais de 24 frames 
por segundo.
Não te admires se ao espelho deres conta 
de te faltarem não sei quantos píxeis.

Ainda não acabaste de chegar.
Parte de ti                     ficar.


                                                                     Paulo José Borges

Clica aqui para ouvires



terça-feira, 25 de abril de 2017

Four / Twenty Five (esboço #44)


Abril encarnou na praça
uma canção cravejada de flores
e o povo saiu à rua
de lágrimas em punho.

O momento respirou fundo a ganhar tempo
e acordaram todos felizes para sempre.


                                     Paulo José Borges

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Poema do Carcereiro

mordo os meu lábios com força
beijo como a Florbela mas a mim mesmo.

amordaço-me manieto os meus melhores
intentos
algemo-me agrilhoo-me
coloco bolas pesadas nos pés
sou cativo fechado por dentro.

uso colete de forças
correntes e mergulho de cabeça para baixo:
Houdini de trazer por casa com síndrome de
Estocolmo cercado por dentro.

que soco poderoso no estômago só de
imaginar o rio depois do fosso.

falando verdade
depois de cada passo à bebé olho para trás
e orgulho-me de cada cratera cavada
com desvelo.

o passo seguinte? não sei.
minha mãe, dá licença?

                                                                       Paulo José Borges

(para ouvir clique aqui.)



domingo, 16 de abril de 2017

Erro 404

O verbo que buscais
Não se encontra aqui.

Pesquisai noutro sítio.


                Paulo José Borges

terça-feira, 11 de abril de 2017

Poema do até sempre

olá
vim só dizer-te adeus.

é
os enredos são muito rápidos
nos meus cenários.

dialogámos imenso no meu guião
fizemos tudo
da sedução à rendição
tudo.

fui sempre assim
grandes longas metragens
na minha mente, preenchendo lacunas
entre sorrisos teus
tudo à base de argamassa da ficção.

se te dissesse flores, pedras, rebanhos
era só trama
desesperada.

não
digo-te adeus.
nem sequer será narrativa aberta
fade out
(grande filme)

FINE


                                                                 Paulo José Borges


domingo, 26 de março de 2017

Poema escancarado

Não leves a mal este pequeno reparo

Não te sentes ao meu lado
Não me sorrias não me abraces
Não apareças

Pela tua saudinha
Não faças that thing you do
Não me cheires bem
Não me sorrias não me abraces

Se apareceres desconhece-me
                         desgosta-me

Não me trates bem
Não suporto isso
Não me fales com a tua voz de mil cores

Não me apareças
Não te vás embora
Acima de tudo não te mexas
Que me abalas todo.

Podes ir
Fecha a porta

Não me sorrias não me abraces.

                                                                                Paulo José Borges



sábado, 11 de março de 2017

Poema fechado à chave

desenho de Rui Cavaleiro



Quando menos esperares,
Vou irromper por essa porta,
Cruzar essa entrada,
Enfiar-me por esse acesso,
Ultrapassar esse limiar,
Enveredar por essa abertura,
Penetrar por essa ombreira,
Insinuar-me por essa fenda,
Introduzir-me por esse umbral adentro,
Infiltrar-me por essa soleira,
Galgar esse portão.
E depois nem queiras saber... 

O que não seria se vivesses mais perto...


                                                                                Paulo José Borges


domingo, 5 de março de 2017

Poema de não ver

a cegueira é a primeira e
a última nudez
é voltar à infância num quarto escuro
e rirmo-nos muito
do nervoso
com medo de que quem nos toque
assuste (maior insídia seria que nos abraçassem)
e esperar esperar já de riso
embaciado
afinal quando é que nos acendem a luz



                                                                Paulo José Borges