sábado, 9 de dezembro de 2017

Segundo poema do que podia ter sido

No auge de toda a turbulência, no monte, 
Catherine dizia I am Heathcliff
Nunca se disse melhor do que isto.

E é como se na verdade eu tivesse abandonado o meu corpo, 
to legasse, e me mudasse sem armas nem bagagens para 
dentro do teu e me aconchegasses nele num cantinho esconso 
junto à lareira, ou debaixo de uns ternos cobertores de inverno, estando frio. 

Mudei-me para dentro de ti. 
E não me digas que não estás em casa.


                                   Paulo José Borges

Primeiro poema do que podia ter sido

Hoje almocei contigo mesmo que não pudesses vir, 
ou, mesmo que não pudesses ter vindo. Tentei dizer-te 
que vinha almoçar contigo, tentei convidar-te, 
mas eu não sei se estava.

E viemos, então, até junto ao mar que tu amas 
pelo menos tanto como a mim. E deixámo-nos estar 
mergulhados um no outro. Molhámo-nos de lágrimas 
que são colírios da alma e que lavam tudo limpidamente. 
E falámos muito. Com os olhos. 
Que sabem as línguas todas e que 
são sempre pentecostes do que se sente cá dentro.

Houve uma luz intensa que desafiou com sucesso a do sol, 
e a fina névoa cobriu-nos os beijos. 

Só não te agradeço o teres vindo, porque sei que mo levavas a mal.

                                                     
                                            Paulo José Borges


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Poema suave ao toque

o que tenho de melhor
são as minhas
mãos
já não há molde
para isto

as minhas mãos
estão sempre quentes, sabes

ah pois
        não sabes


                                         Paulo José Borges


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domingo, 19 de novembro de 2017

Poema intumescido

há versos teimosos
como raízes de árvores que levantam a calçada
e te alteram todo o passeio.




                                   Paulo José Borges


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sábado, 18 de novembro de 2017

Poema da baliza aberta

[versão soft]


Isolaram-te com um passe a rasgar, meu.
(O número 10 da tua equipa é um jogador
de antologia.)
Quase nem precisas de ajeitar a bola,
está ali à tua mercê,  
de graça.

Vais ter a lata de simular falta só porque o central
te tocou de raspão? Vais tentar arrancar-lhe o vermelho?
Ou vais fazer aquilo para que te convocaram?

Mete a bola lá dentro!
Quantas equações matemáticas te faltam ainda,
quantos silogismos e sofismas?
Mete-a lá dentro nem que o estádio esteja completamente vazio.


Não me lixes, carago!



domingo, 24 de setembro de 2017

Poema de quando entro em casa

A verdade é que já não consigo suster
o vosso olhar de censura quando acabo de
entrar no apartamento.
Emoldurados olhais-me em silêncio que é o que me inquieta mais
e perguntais-me sempre em tom magoado:
- Foi para isto que te engendramos?
Ou em estrangeiro:
- Is this your best shot?

Pois, lamento mas vou ter de vos guardar num armário
numa caixa.
Eu prometo que vos embrulho com cuidado
protejo o vidro da moldura e
e garanto que estareis sempre comigo muito mais do que
quando não pegava no telefone.
Mas entendam que já não consigo ver-me no espelho duplicado das vossas
fotografias e ficar sempre a perder na comparação.

Sim, também acontece adivinhar-vos as dúvidas
as descrenças, o pânico, as insónias tão fluorescentes quanto as minhas.

Mas pronto tem de ser.
Também ninguém entra aqui.
Ninguém me censurará a insensibilidade de arquivar
entes queridos num armário já sobrelotado.


                                                                 Paulo José Borges


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Poema reclinado

gosto que venha o calor
só para te ver assim na praia
em lânguido abandono

a tez dourada o corpo untado
um ócio todo estendido

podia continuar mais estas linhas
mas tenho receio que fique um pouco
umbíguo


                                               Paulo José Borges