domingo, 21 de janeiro de 2018

Poema da taxidermia (ou lazarento)


                                          
                                                                                        Jo 11, 43-44

tudo me pesa
tudo me sobrecarrega
tudo me é um jugo
                    (uma canga).

tudo à volta é novelo
auscultadores embaraçados
tudo sem ponta
tudo me enrosca
        me enrodilha
                    (um desperdício).

tudo me empalha
        me empareda
        me atrapalha me enreda
        me afunda
                     (embalsamado).



                                                                  Paulo José Borges

sábado, 30 de dezembro de 2017

Poema dos nomes

Na minha rua viviam

a Brazelina,
a Durvalina
o Porfírio,
a Aureliana
a Miquelina
a Iria
a Mimosa
a Evangelina
o Maximiliano
a Graziela
e até a Liberdade

o que é mais do que suficiente para que
vos roais de inveja.

só ainda não vos disse
que vivi a dois passos da
Felicidade.



                                                                   Paulo José Borges

sábado, 23 de dezembro de 2017

Poema always legal

para Rui Cavaleiro

acordo intermitente a meio 
da noite com alterações climáticas
tenho calor e frio
sonhos cor de rosa e de breu.

às vezes sozinho às vezes solitário
tenho vigílias de icebergue e de solário.

tudo isto é assim sem mais explicações
seria abastado se ganhasse às frustrações.



                                               Paulo José Borges

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Poema eficaz

 ao passar pela página 232 de 
Explicação dos pássaros de António Lobo Antunes


Tomei hoje de manhã
a vacina da gripe contra a solidão.

Já me sinto quase imunizado.


                                            Paulo José Borges

sábado, 9 de dezembro de 2017

Segundo poema do que podia ter sido

No auge de toda a turbulência, no monte, 
Catherine dizia I am Heathcliff
Nunca se disse melhor do que isto.

E é como se na verdade eu tivesse abandonado o meu corpo, 
to legasse, e me mudasse sem armas nem bagagens para 
dentro do teu e me aconchegasses nele num cantinho esconso 
junto à lareira, ou debaixo de uns ternos cobertores de inverno, estando frio. 

Mudei-me para dentro de ti. 
E não me digas que não estás em casa.


                                   Paulo José Borges

Primeiro poema do que podia ter sido

Hoje almocei contigo mesmo que não pudesses vir, 
ou, mesmo que não pudesses ter vindo. Tentei dizer-te 
que vinha almoçar contigo, tentei convidar-te, 
mas eu não sei se estava.

E viemos, então, até junto ao mar que tu amas 
pelo menos tanto como a mim. E deixámo-nos estar 
mergulhados um no outro. Molhámo-nos de lágrimas 
que são colírios da alma e que lavam tudo limpidamente. 
E falámos muito. Com os olhos. 
Que sabem as línguas todas e que 
são sempre pentecostes do que se sente cá dentro.

Houve uma luz intensa que desafiou com sucesso a do sol, 
e a fina névoa cobriu-nos os beijos. 

Só não te agradeço o teres vindo, porque sei que mo levavas a mal.

                                                     
                                            Paulo José Borges


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Poema suave ao toque

o que tenho de melhor
são as minhas
mãos
já não há molde
para isto

as minhas mãos
estão sempre quentes, sabes

ah pois
        não sabes


                                         Paulo José Borges


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