O meu primeiro livro de poemas

já está disponível O MEU PRIMEIRO LIVRO DE POEMAS
pedidos através de: paulojoseborges.escritor@gmail.com

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Como nos filmes

Quando apareceste
(até me vem o sorriso aos olhos)
senti-te logo como o calor da
terra quente que nos sai ao
caminho logo pela manhã.

De soslaio meti-te logo
no bolso de dentro e levantei a gola
para me convencer do disfarce.
Tudo ali tinha tudo para ser
um lugar inusitado
mas talvez por isso o teu olhar
se tenha emaranhado todo no meu.
Sim foi por isso que não consegui
desfiar
o olhar.

Mas o grande mistério do mundo
é que quisesses livre e deliberada
vir habitar o meu forro
sem prazo e questionamento.

Levei-te para o meu quarto
de hotel
como nos filmes
onde com pouquíssima roupa
qual conluiada com Vénus (dos amores)
olhavas da janela as ilhas
de gentes lá em baixo (e os rumores).

O que me massacrava as meninges
apertadas em torniquete era a pergunta de
Sophia: que faria eu com a tua inocência?

Virámos entretanto a cidade do avesso
escolhi alcatifas à distância
tirei fotografias de conveniência
e quando tudo podia ter acontecido
porque éramos guardiões do nosso exclusivo
tempo e porque
o que quer que fizéssemos seria justo e certo
fizemos o que nos pareceu justo e certo:
desejámo-nos sorte, coisas boas e
memória eterna.

Depois encontrei-te já de táxi
como nos filmes
saí para o meio da multidão
sussurrei-te ao ouvido um
beijo escarlate e só muito mais tarde
me lembrei do casaco.


                                               Paulo José Borges

clica aqui para ouvires.


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Poema da eloquência

Começa assim:





























                                                                 Paulo José Borges

sábado, 21 de abril de 2018

Poema do teu lado

                                                                               João 19:34

Do teu lado
                 sei de água;
Do teu lado
                 sei de sangue:

Vida que não estanca
por dentro e por fora,
para sempre e agora.

Do teu lado
                  adivinho o caminho;
Do teu lado
                  adivinho a porta:

Vida que não estanca
por dentro e por fora,
para sempre e agora.

Do teu lado
                 fito a verdade;
Do teu lado
                 faz-se luz:

Vida que não estanca
por dentro e por fora,
para sempre é a hora.

                                                       Paulo José Borges





sexta-feira, 20 de abril de 2018

Poema engenhoso

quando gostares de pontes
admirarás o seu largo vão.
deixar-te-ás seduzir pela balaustrada de pilares
embebidos no fundo do chão.

haverá seguramente derrapagens
e talvez transites com abrandamentos
e resistências.

mas quando te sobrelevares das águas
não esquecerás os ramais de acesso
as vias de escoamento
e tudo o mais que te permita
chegar ao destino sem nós.



                                                                   Paulo José Borges


para ouvires clica aqui.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

A árvore do canto

É funda a imobilidade que me tolhe
E se o meu sentimento é vasto
não há quem por ele olhe.

Eu não me movo e nem me interessa.
Basta que me sustente o lamento
ou que eu ganhe juízo pois tenho tempo.

E por fim chove secamente.

As pétalas dos ramos escorrem sem pressa
que eu sou uma árvore nodosa
com a garganta presa.



                                                                                                12 de dezembro de 2000
                                                                                                    Paulo José Borges

sábado, 7 de abril de 2018

Guerra aberta

Uma febre densa levanta-se cedo
São horas de guerrear o amanhã
Combate-se corpo a corpo com o medo
E com os oráculos mais lúgubres que há.

As vitórias bélicas trazem perdas
Nem os guerreiros mais bravos dissipam o perigo
Morre-se fatalmente por prados e veredas
Ninguém estanca a dor que traz consigo.



                                                                                             6 de janeiro de 2000
                                                                                               Paulo José Borges

segunda-feira, 26 de março de 2018

Poema quase esquecido

E já não me lembro de quase nada.

No café havia um
homem que engraxava sapatos
nos intervalos de arrumar cadeiras
que endireitava assim que os clientes
as deixavam tortas
e rodava o café dezenas de vezes
como num circo romano até
que se desse por satisfeito
ajustando imperceptíveis desalinhos.
A gente ria-se um pouco no meio
do receio          desconhecido.

Mais à esquerda na outra esquina
via-se um homem com farta melena
agarrar o seu crânio com ambas as mãos
como se o estivesse a (des)atarraxar no meio
do receio          desconhecido.

E já não me lembro de quase nada.

Recordo que às vezes desatava
a cantar para ti a capella
no meio de um campo mesmo
que não me lembrasse do teu nome
nem sequer da tua face.
Coisa rara ouvires estranhos a cantar.
Tu não existes.
E de cantar outra vez para quatro ou cinco
sem pré-aviso
tinha eu idade para ter juízo.

(Lembro-me de por esta altura ser o narrador da
Paixão.)

E já não me lembro de quase nada.

Nem do nome do livro que tinha enredo
num país gelado
com capa azul e branca que um dia
alguém deu a um pobrezinho
coitado.

Mas já não me lembro de quase nada.

Porque cantava? Porque me lembro dele
sempre que arrumo cadeiras? Porque
me lembrava do outro quando eu estava
doente da cabeça? (Porque me ouvias
às meias horas?) Porque quero o
livro que perdi na infância quando
sei que o vou enfiar num caixote
assim que o encontrar?

Perguntas que poderiam muito bem
tirar-me o sono
não se desse o caso de
não me lembrar de quase nada.


                                                                          Paulo José Borges


para clicar escuta aqui ;)