quarta-feira, 30 de maio de 2018

Tão certo

tão certo quanto
começar a chover quando
ponderadamente levei
meses a decidir lavar o carro

tão certo quanto
confundirem a minha
desinteressada bondade
com declarada falta de firmeza

tão certo quanto
quem nunca se empenhou
um momento
seja o primeiro a pedir contas

tão certo quanto
conspurcarem imperiosamente
aquilo que acabei de limpar

é o meu amor por ti
tanto quanto o daquela fotografia
onde nos fixámos os dois.


                                                       Paulo José Borges


clica aqui para ouvires

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Como nos filmes

Quando apareceste
(até me vem o sorriso aos olhos)
senti-te logo como o calor da
terra quente que nos sai ao
caminho logo pela manhã.

De soslaio meti-te logo
no bolso de dentro e levantei a gola
para me convencer do disfarce.
Tudo ali tinha tudo para ser
um lugar inusitado
mas talvez por isso o teu olhar
se tenha emaranhado todo no meu.
Sim foi por isso que não consegui
desfiar
o olhar.

Mas o grande mistério do mundo
é que quisesses livre e deliberada
vir habitar o meu forro
sem prazo e questionamento.

Levei-te para o meu quarto
de hotel
como nos filmes
onde com pouquíssima roupa
qual conluiada com Vénus (dos amores)
olhavas da janela as ilhas
de gentes lá em baixo (e os rumores).

O que me massacrava as meninges
apertadas em torniquete era a pergunta de
Sophia: que faria eu com a tua inocência?

Virámos entretanto a cidade do avesso
escolhi alcatifas à distância
tirei fotografias de conveniência
e quando tudo podia ter acontecido
porque éramos guardiões do nosso exclusivo
tempo e porque
o que quer que fizéssemos seria justo e certo
fizemos o que nos pareceu justo e certo:
desejámo-nos sorte, coisas boas e
memória eterna.

Depois encontrei-te já de táxi
como nos filmes
saí para o meio da multidão
sussurrei-te ao ouvido um
beijo escarlate e só muito mais tarde
me lembrei do casaco.


                                               Paulo José Borges

clica aqui para ouvires.


sexta-feira, 4 de maio de 2018

Poema da eloquência

Começa assim:





























                                                                 Paulo José Borges

sábado, 21 de abril de 2018

Poema do teu lado

                                                                               João 19:34

Do teu lado
                 sei de água;
Do teu lado
                 sei de sangue:

Vida que não estanca
por dentro e por fora,
para sempre e agora.

Do teu lado
                  adivinho o caminho;
Do teu lado
                  adivinho a porta:

Vida que não estanca
por dentro e por fora,
para sempre e agora.

Do teu lado
                 fito a verdade;
Do teu lado
                 faz-se luz:

Vida que não estanca
por dentro e por fora,
para sempre é a hora.

                                                       Paulo José Borges





sexta-feira, 20 de abril de 2018

Poema engenhoso

quando gostares de pontes
admirarás o seu largo vão.
deixar-te-ás seduzir pela balaustrada de pilares
embebidos no fundo do chão.

haverá seguramente derrapagens
e talvez transites com abrandamentos
e resistências.

mas quando te sobrelevares das águas
não esquecerás os ramais de acesso
as vias de escoamento
e tudo o mais que te permita
chegar ao destino sem nós.



                                                 Paulo José Borges


para ouvires clica aqui.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

A árvore do canto

É funda a imobilidade que me tolhe
E se o meu sentimento é vasto
não há quem por ele olhe.

Eu não me movo e nem me interessa.
Basta que me sustente o lamento
ou que eu ganhe juízo pois tenho tempo.

E por fim chove secamente.

As pétalas dos ramos escorrem sem pressa
que eu sou uma árvore nodosa
com a garganta presa.



                                                                                     12 de dezembro de 2000
                                                                                           Paulo José Borges

sábado, 7 de abril de 2018

Guerra aberta

Uma febre densa levanta-se cedo
São horas de guerrear o amanhã
Combate-se corpo a corpo com o medo
E com os oráculos mais lúgubres que há.

As vitórias bélicas trazem perdas
Nem os guerreiros mais bravos dissipam o perigo
Morre-se fatalmente por prados e veredas
Ninguém estanca a dor que traz consigo.



                                                                                      6 de janeiro de 2000
                                                                                         Paulo José Borges