O meu primeiro livro de poemas

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sexta-feira, 8 de junho de 2018

Eu saio sozinho

não repitas sempre
os mesmos gestos:
é feio.

não dês sempre
os mesmos passos:
ficas a marcá-los.

não escolhas sempre
os mesmos trilhos:
ainda te magoas
encravado.

não ensaies tantas vezes
o mesmo ato:
ao saíres de cena
ninguém tolera
o espalhafato.

                                     
                 Paulo José Borges

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quarta-feira, 30 de maio de 2018

Tão certo

tão certo quanto
começar a chover quando
ponderadamente levei
meses a decidir lavar o carro

tão certo quanto
confundirem a minha
desinteressada bondade
com declarada falta de firmeza

tão certo quanto
quem nunca se empenhou
um momento
seja o primeiro a pedir contas

tão certo quanto
conspurcarem imperiosamente
aquilo que acabei de limpar

é o meu amor por ti
tanto quanto o daquela fotografia
onde nos fixámos os dois.


                                                       Paulo José Borges


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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Como nos filmes

Quando apareceste
(até me vem o sorriso aos olhos)
senti-te logo como o calor da
terra quente que nos sai ao
caminho logo pela manhã.

De soslaio meti-te logo
no bolso de dentro e levantei a gola
para me convencer do disfarce.
Tudo ali tinha tudo para ser
um lugar inusitado
mas talvez por isso o teu olhar
se tenha emaranhado todo no meu.
Sim foi por isso que não consegui
desfiar
o olhar.

Mas o grande mistério do mundo
é que quisesses livre e deliberada
vir habitar o meu forro
sem prazo e questionamento.

Levei-te para o meu quarto
de hotel
como nos filmes
onde com pouquíssima roupa
qual conluiada com Vénus (dos amores)
olhavas da janela as ilhas
de gentes lá em baixo (e os rumores).

O que me massacrava as meninges
apertadas em torniquete era a pergunta de
Sophia: que faria eu com a tua inocência?

Virámos entretanto a cidade do avesso
escolhi alcatifas à distância
tirei fotografias de conveniência
e quando tudo podia ter acontecido
porque éramos guardiões do nosso exclusivo
tempo e porque
o que quer que fizéssemos seria justo e certo
fizemos o que nos pareceu justo e certo:
desejámo-nos sorte, coisas boas e
memória eterna.

Depois encontrei-te já de táxi
como nos filmes
saí para o meio da multidão
sussurrei-te ao ouvido um
beijo escarlate e só muito mais tarde
me lembrei do casaco.


                                               Paulo José Borges

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sexta-feira, 4 de maio de 2018

Poema da eloquência

Começa assim:





























                                                                 Paulo José Borges

sábado, 21 de abril de 2018

Poema do teu lado

                                                                               João 19:34

Do teu lado
                 sei de água;
Do teu lado
                 sei de sangue:

Vida que não estanca
por dentro e por fora,
para sempre e agora.

Do teu lado
                  adivinho o caminho;
Do teu lado
                  adivinho a porta:

Vida que não estanca
por dentro e por fora,
para sempre e agora.

Do teu lado
                 fito a verdade;
Do teu lado
                 faz-se luz:

Vida que não estanca
por dentro e por fora,
para sempre é a hora.

                                                       Paulo José Borges





sexta-feira, 20 de abril de 2018

Poema engenhoso

quando gostares de pontes
admirarás o seu largo vão.
deixar-te-ás seduzir pela balaustrada de pilares
embebidos no fundo do chão.

haverá seguramente derrapagens
e talvez transites com abrandamentos
e resistências.

mas quando te sobrelevares das águas
não esquecerás os ramais de acesso
as vias de escoamento
e tudo o mais que te permita
chegar ao destino sem nós.



                                                                   Paulo José Borges


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quarta-feira, 11 de abril de 2018

A árvore do canto

É funda a imobilidade que me tolhe
E se o meu sentimento é vasto
não há quem por ele olhe.

Eu não me movo e nem me interessa.
Basta que me sustente o lamento
ou que eu ganhe juízo pois tenho tempo.

E por fim chove secamente.

As pétalas dos ramos escorrem sem pressa
que eu sou uma árvore nodosa
com a garganta presa.



                                                                                                12 de dezembro de 2000
                                                                                                    Paulo José Borges

sábado, 7 de abril de 2018

Guerra aberta

Uma febre densa levanta-se cedo
São horas de guerrear o amanhã
Combate-se corpo a corpo com o medo
E com os oráculos mais lúgubres que há.

As vitórias bélicas trazem perdas
Nem os guerreiros mais bravos dissipam o perigo
Morre-se fatalmente por prados e veredas
Ninguém estanca a dor que traz consigo.



                                                                                             6 de janeiro de 2000
                                                                                               Paulo José Borges

segunda-feira, 26 de março de 2018

Poema quase esquecido

E já não me lembro de quase nada.

No café havia um
homem que engraxava sapatos
nos intervalos de arrumar cadeiras
que endireitava assim que os clientes
as deixavam tortas
e rodava o café dezenas de vezes
como num circo romano até
que se desse por satisfeito
ajustando imperceptíveis desalinhos.
A gente ria-se um pouco no meio
do receio          desconhecido.

Mais à esquerda na outra esquina
via-se um homem com farta melena
agarrar o seu crânio com ambas as mãos
como se o estivesse a (des)atarraxar no meio
do receio          desconhecido.

E já não me lembro de quase nada.

Recordo que às vezes desatava
a cantar para ti a capella
no meio de um campo mesmo
que não me lembrasse do teu nome
nem sequer da tua face.
Coisa rara ouvires estranhos a cantar.
Tu não existes.
E de cantar outra vez para quatro ou cinco
sem pré-aviso
tinha eu idade para ter juízo.

(Lembro-me de por esta altura ser o narrador da
Paixão.)

E já não me lembro de quase nada.

Nem do nome do livro que tinha enredo
num país gelado
com capa azul e branca que um dia
alguém deu a um pobrezinho
coitado.

Mas já não me lembro de quase nada.

Porque cantava? Porque me lembro dele
sempre que arrumo cadeiras? Porque
me lembrava do outro quando eu estava
doente da cabeça? (Porque me ouvias
às meias horas?) Porque quero o
livro que perdi na infância quando
sei que o vou enfiar num caixote
assim que o encontrar?

Perguntas que poderiam muito bem
tirar-me o sono
não se desse o caso de
não me lembrar de quase nada.


                                                                          Paulo José Borges


para clicar escuta aqui ;)






quarta-feira, 21 de março de 2018

Dissonante (com Nuno Miguel Morais)




E eis que tudo é impuro quando o amor é um nocturno desconcertante
E eis que é fosso escuro que eu te acorde dissonante.
As mãos como relâmpagos indiferentes
De procelas urgentes de garras mal cortadas.
São águas gélidas o nosso amor nas eternas alvoradas
São águas mal passadas nas eternas alvoradas do nosso torpor.
Que fazer quando em nós apenas delírio e sofrimento
Que fazer quando me faz espécie a tua teoria da evolução do ressentimento?
E eis que do nada uma imaculada carícia
rebenta tecidos em necrose que nutriste como guardião perfilado
Somos um só vencidos no deslumbramento do amor naufragado.


 Nuno Miguel Morais e Paulo José Borges

segunda-feira, 12 de março de 2018

Poema da flatline

um dia destes acordei
tão

em
baixo

que pensei que me tinha
morrido nos braços.

foi então que aconteceu
um rigoroso
nada.


                                       Paulo José Borges

domingo, 4 de março de 2018

Poema da porta das decisões

caminhos e atalhos
alhos e bugalhos
veredas e alamedas
asfaltos e cascalhos.

ruas, avenidas e vielas
paralelos, macadames, britas
terra batida, fim da picada.

rumos, rotas, planos
curva e contracurva
subidas e descidas
vê nos calços os danos.

alhos e bugalhos
ou sim ou sopas
viajas o no viajas?
si no viajas estás molestando.


                                         Paulo José Borges

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Poema ainda sem nome

é já no próximo dia 14
que não vai acontecer absolutamente nada
por isso sinto muita vontade
de aquecer-te esquecer-te.

recordo muito o que vai ser
ao sentir-te o calor à flor da pele
os arrepios de cílios e
os estremecimentos involuntários
a sonhar-te com os olhos
a tocar-te nos lados.

(às vezes parece que existes
às vezes pareço o que desejas)

podíamos combinar não podíamos?
programávamos tudo perfeitamente
ao acaso
seguíamos urgentemente
passo a passo.

promete-me só que cortas as unhas rentes

looking fast forward to meeting you.



                                                           Paulo José Borges


domingo, 21 de janeiro de 2018

Poema da taxidermia (ou lazarento)


                                          
                                                                                        Jo 11, 43-44

tudo me pesa
tudo me sobrecarrega
tudo me é um jugo
                    (uma canga).

tudo à volta é novelo
auscultadores embaraçados
tudo sem ponta
tudo me enrosca
        me enrodilha
                    (um desperdício).

tudo me empalha
        me empareda
        me atrapalha me enreda
        me afunda
                     (embalsamado).



                                                                  Paulo José Borges

sábado, 30 de dezembro de 2017

Poema dos nomes

Na minha rua viviam

a Brazelina,
a Durvalina
o Porfírio,
a Aureliana
a Miquelina
a Iria
a Mimosa
a Evangelina
o Maximiliano
a Graziela
e até a Liberdade

o que é mais do que suficiente para que
vos roais de inveja.

só ainda não vos disse
que vivi a dois passos da
Felicidade.



                                                                   Paulo José Borges

sábado, 23 de dezembro de 2017

Poema always legal

para Rui Cavaleiro

acordo intermitente a meio 
da noite com alterações climáticas
tenho calor e frio
sonhos cor de rosa e de breu.

às vezes sozinho às vezes solitário
tenho vigílias de icebergue e de solário.

tudo isto é assim sem mais explicações
seria abastado se ganhasse às frustrações.



                                               Paulo José Borges

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Poema eficaz

 ao passar pela página 232 de 
Explicação dos pássaros de António Lobo Antunes


Tomei hoje de manhã
a vacina da gripe contra a solidão.

Já me sinto quase imunizado.


                                            Paulo José Borges

sábado, 9 de dezembro de 2017

Segundo poema do que podia ter sido

No auge de toda a turbulência, no monte, 
Catherine dizia I am Heathcliff
Nunca se disse melhor do que isto.

E é como se na verdade eu tivesse abandonado o meu corpo, 
to legasse, e me mudasse sem armas nem bagagens para 
dentro do teu e me aconchegasses nele num cantinho esconso 
junto à lareira, ou debaixo de uns ternos cobertores de inverno, estando frio. 

Mudei-me para dentro de ti. 
E não me digas que não estás em casa.


                                   Paulo José Borges

Primeiro poema do que podia ter sido

Hoje almocei contigo mesmo que não pudesses vir, 
ou, mesmo que não pudesses ter vindo. Tentei dizer-te 
que vinha almoçar contigo, tentei convidar-te, 
mas eu não sei se estava.

E viemos, então, até junto ao mar que tu amas 
pelo menos tanto como a mim. E deixámo-nos estar 
mergulhados um no outro. Molhámo-nos de lágrimas 
que são colírios da alma e que lavam tudo limpidamente. 
E falámos muito. Com os olhos. 
Que sabem as línguas todas e que 
são sempre pentecostes do que se sente cá dentro.

Houve uma luz intensa que desafiou com sucesso a do sol, 
e a fina névoa cobriu-nos os beijos. 

Só não te agradeço o teres vindo, porque sei que mo levavas a mal.

                                                     
                                            Paulo José Borges