estão a chegar as festas
as boas
põe-se um vinil à lareira
e deixa-se tocar.
que seja uma coisa da época
que seja uma coisa intemporal.
vira o disco e toca o mesmo
e já se passa pelas brasas.
(depois de farto repasto
vem mesmo a calhar.)
volta-se à infância desde o início
pedindo-se de empréstimo olhos
às crianças deste tempo
e tudo volta a girar.
põe-se um vinil à lareira
e ouve-se o crepitar.
quem gosta dos discos antigos
não sabe explicar.
mas desconfio que é o abraço da agulha
traçando os sulcos que é mesmo
uma lareira a lembrar.
põe-se um vinil à lareira
e tu voltas a estar.
Paulo José Borges
áudio por aqui
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
domingo, 9 de dezembro de 2018
Estado estacionário
"Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, (...)"
Robert Frost
Sabes que mais:
não gosto nada de encruzilhadas
nem de entroncamentos
e as bifurcações são a língua afiada
das serpentes e não é coisa bonita
de se ver.
As encruzilhadas estão sempre
aí ao virar da esquina, esfíngicas,
aí ao virar da esquina, esfíngicas,
mas com um senão:
os enigmas que nos colocam são só
silêncios. Fazem da mudez interrogação.
As encruzilhadas são encruzilhadas
de encruzilhadas
e isso faz-me toda a indiferença.
e isso faz-me toda a indiferença.
As encruzilhadas são o clima mais
desértico do mundo, por vezes subitamente
pontuado por multas das brigadas de
trânsito que abominam o isolamento
tanto quanto tu e eu.
A linguagem da encruzilhada, se eu a entendesse,
seria quase indecifrável como a caligrafia
de aluno pouco escorado em conhecimento
em dia de teste
com o tempo contado.
com o tempo contado.
Desconfio, não sei se concordas comigo,
que quem entender a língua da encruzilhada
deve ser fluente em desesperanto.
deve ser fluente em desesperanto.
Paulo José Borges
sábado, 24 de novembro de 2018
Aviso
"Guerra é paz. Liberdade é escravidão.
Ignorância é força."
George Orwell, 1984
Por razões de higiene
Não se aceitam revoluções.
Paulo José Borges
quinta-feira, 1 de novembro de 2018
A parábola ineficaz
Eu um dia marquei
um golo de longe
mas ninguém se lembra disso.
A bola descreveu um arco
tão largo que quando
cruzou a linha de golo
já todos entravam em sua casa.
Paulo José Borges
um golo de longe
mas ninguém se lembra disso.
A bola descreveu um arco
tão largo que quando
cruzou a linha de golo
já todos entravam em sua casa.
Paulo José Borges
domingo, 7 de outubro de 2018
Eurídice de Campanhã
À barca, à barca segura,
barca bem guarnecida,
à barca, à barca da vida!
Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente.
barca bem guarnecida,
à barca, à barca da vida!
Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente.
Se porventura conceberes a ideia de
a ires levar à estação,
não temas Caronte -
- paga-lhe o óbolo em lágrimas de ferro.
No cais, como mortos, muitos esperam
o seu destino. Uns entram sem mais delongas,
despachando os entes queridos sem malas
a abanar. Outros entram alijando o lastro
e saem de novo como que enredados em
pesca de cerco. Os últimos, como que
desmemoriados, fazem vagas contas de
cabeça, indagando se será ainda
possível reaver o dinheiro da passagem.
Mas o homem do leme é implacável
e levanta o mastro encarnado para que
a barca levante ferro, (como as lágrimas,
não esqueças.)
É tempo de te armares guerreiro,
de sorrires com todas as cores,
porque, no fim de contas, não és tu
quem vai em campanha para o estrangeiro.
(Tu ficas no cais, não sejas parvo,
não baralhes os papéis.)
Sustenta a oxidada neblina que te toldar
os olhos quando a saída do comboio
for de um longo e largo comprimento.
Tempos mais tarde, se fores favorecido
pela potência da lírica, atravessarás
os portões de ferro e, no final da
tua fabulosa tournée, trá-la-ás contigo.
(Leva palas.)
quarta-feira, 3 de outubro de 2018
Ti voglio bene
Quero-te bem e
por isso quero-te bem.
Quero-te com saúde e
quero-te.
Quero-te feliz e
quero-te.
Quero-te realizada nas
mil e uma coisas com
que preenches os teus dias e
quero-te.
Quero-te completamente livre e
quero-te.
Mas sobretudo,
não sei se me faço entender,
quero-te bem.
Paulo José Borges
para escutar clica aqui.
por isso quero-te bem.
Quero-te com saúde e
quero-te.
Quero-te feliz e
quero-te.
Quero-te realizada nas
mil e uma coisas com
que preenches os teus dias e
quero-te.
Quero-te completamente livre e
quero-te.
Mas sobretudo,
não sei se me faço entender,
quero-te bem.
Paulo José Borges
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quinta-feira, 13 de setembro de 2018
O outro prado
Tragam-me árvores daí de cima
e ramos e folhas
um ou outro fruto e um pássaro esporádico
e estendam-me um prado
de sombras frondosas que eu não gosto
de sol directo.
Tragam-me uma brisa quase tépida que
eu não aprecio vento pelas costas
e dêem-me uma ideia de rio
e uma sensação de ponte
que me ofereça um plano
de fuga para outro prado.
Estendam-me uma espreguiçadeira
no verde de uma casa que tive um dia
e fecho os olhos e vejo as
nuvens previsíveis e inéditas
e adormeço no silêncio preenchido
que vem cá de baixo.
Paulo José Borges
para ouvires clica aqui.
Tragam-me uma brisa quase tépida que
eu não aprecio vento pelas costas
e dêem-me uma ideia de rio
e uma sensação de ponte
que me ofereça um plano
de fuga para outro prado.
Estendam-me uma espreguiçadeira
no verde de uma casa que tive um dia
e fecho os olhos e vejo as
nuvens previsíveis e inéditas
e adormeço no silêncio preenchido
que vem cá de baixo.
Paulo José Borges
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