quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Para sempre

Morrem-nos pessoas por entre as mãos.
Morrem-nos pessoas como irmãos.

In extremis procuramos o seu resgate
do chão
colhendo os pretéritos mais do que passados para que não se esqueça quem
ainda são.

Restam-nos intermitentes memórias que para sempre perdurarão se ao olvido
não adicionarmos ingratidão.


                                                          Paulo José Borges

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Discos perdidos

estão a chegar as festas
as boas
põe-se um vinil à lareira
e deixa-se tocar.

que seja uma coisa da época
que seja uma coisa intemporal.

vira o disco e toca o mesmo
e já se passa pelas brasas.
(depois de farto repasto
vem mesmo a calhar.)

volta-se à infância desde o início
pedindo-se de empréstimo olhos
às crianças deste tempo
e tudo volta a girar.

põe-se um vinil à lareira
e ouve-se o crepitar.

quem gosta dos discos antigos
não sabe explicar.
mas desconfio que é o abraço da agulha
traçando os sulcos que é mesmo
uma lareira a lembrar.

põe-se um vinil à lareira
e tu voltas a estar.


                                         Paulo José Borges

áudio por aqui

domingo, 9 de dezembro de 2018

Estado estacionário


                                                                                                     "Two roads diverged in a yellow wood,
                                                                                                     And sorry I could not travel both
                                                                                                     And be one traveler, (...)"
                                                                                                                  Robert Frost



Sabes que mais:
não gosto nada de encruzilhadas
nem de entroncamentos
e as bifurcações são a língua afiada 
das serpentes e não é coisa bonita 
de se ver.

As encruzilhadas estão sempre
aí ao virar da esquina, esfíngicas,
mas com um senão:
os enigmas que nos colocam são só 
silêncios. Fazem da mudez interrogação.

As encruzilhadas são encruzilhadas 
de encruzilhadas
e isso faz-me toda a indiferença.

As encruzilhadas são o clima mais
desértico do mundo, por vezes subitamente
pontuado por multas das brigadas de
trânsito que abominam o isolamento
tanto quanto tu e eu.

A linguagem da encruzilhada, se eu a entendesse,
seria quase indecifrável como a caligrafia
de aluno pouco escorado em conhecimento
em dia de teste
com o tempo contado.

Desconfio, não sei se concordas comigo,
que quem entender a língua da encruzilhada
deve ser fluente em desesperanto.

                                                                               Paulo José Borges



sábado, 24 de novembro de 2018

Aviso

                                                                               

"Guerra é paz. Liberdade é escravidão. 
Ignorância é força."
          George Orwell, 1984



Por razões de higiene
Não se aceitam revoluções.





                   Paulo José Borges

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

A parábola ineficaz

Eu um dia marquei
um golo de longe
mas ninguém se lembra disso.

A bola descreveu um arco
tão largo que quando
cruzou a linha de golo
já todos entravam em sua casa.



               Paulo José Borges

domingo, 7 de outubro de 2018

Eurídice de Campanhã


À barca, à barca segura,
barca bem guarnecida,
à barca, à barca da vida!
Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente.


Se porventura conceberes a ideia de
a ires levar à estação,
não temas Caronte -
- paga-lhe o óbolo em lágrimas de ferro.

No cais, como mortos, muitos esperam
o seu destino. Uns entram sem mais delongas,
despachando os entes queridos sem malas 
a abanar. Outros entram alijando o lastro
e saem de novo como que enredados em
pesca de cerco. Os últimos, como que
desmemoriados, fazem vagas contas de
cabeça, indagando se será ainda 
possível reaver o dinheiro da passagem.

Mas o homem do leme é implacável
e levanta o mastro encarnado para que
a barca levante ferro, (como as lágrimas,
não esqueças.)

É tempo de te armares guerreiro,
de sorrires com todas as cores,
porque, no fim de contas, não és tu 
quem vai em campanha para o estrangeiro.
(Tu ficas no cais, não sejas parvo, 
não baralhes os papéis.)
Sustenta a oxidada neblina que te toldar 
os olhos quando a saída do comboio
for de um longo e largo comprimento.

Tempos mais tarde, se fores favorecido
pela potência da lírica, atravessarás
os portões de ferro e, no final da
tua fabulosa tournée, trá-la-ás contigo.
(Leva palas.)

                                         Paulo José Borges

Para saberes a que soa uma partida clica aqui.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Ti voglio bene

Quero-te bem e
por isso quero-te bem.

Quero-te com saúde e
quero-te.

Quero-te feliz e
quero-te.

Quero-te realizada nas
mil e uma coisas com
que preenches os teus dias e
quero-te.

Quero-te completamente livre e
quero-te.

Mas sobretudo,
não sei se me faço entender,
quero-te bem.


                         Paulo José Borges

para escutar clica aqui.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O outro prado




Tragam-me árvores daí de cima
e ramos e folhas
um ou outro fruto e um pássaro esporádico
e estendam-me um prado
de sombras frondosas que eu não gosto
de sol directo.

Tragam-me uma brisa quase tépida que
eu não aprecio vento pelas costas
e dêem-me uma ideia de rio
e uma sensação de ponte
que me ofereça um plano
de fuga para outro prado.

Estendam-me uma espreguiçadeira
no verde de uma casa que tive um dia
e fecho os olhos e vejo as
nuvens previsíveis e inéditas
e adormeço no silêncio preenchido
que vem cá de baixo.

                                              Paulo José Borges

para ouvires clica aqui.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

As duas estações

Da primeira vez que chegou à estação
vinha amarrotado do sono
mas espaireceu-o como quem sacode
uma fina camada de caspa
e seguiu com os amigos para o verão.

Da segunda vez anos mais tarde
já não se apeou do comboio na estação
mas desceu do autocarro todo
enrodilhado do enjoo.

A estação deixara de ser cais.
Tornara-se cemitério de passos
de lágrimas e risos
de partidas e chegadas
idas e vindas de almas permanentemente
alvoroçadas.
Nem locomotivas nem automotoras
nem carruagens nem vagões
nem carris nem travessas de madeira
que tanta falta faziam às caminhadas
junto à praia.
Sobrara apenas um edifício da estação
que vendia alimentos com a mesmíssima
e generosa fuligem de outrora.

E então pensou
se piso este solo abandonado não o profano?
se dou um passo hesitante não posso
ser trucidado por um comboio irremediavelmente
atrasado?

E então a desolação
desceu-lhe do peito às entranhas
como quando ela um dia deixou
de lhe telefonar, de lhe falar no messenger
de lhe responder aos emails
quando ao fim e ao cabo tornou obsoletas
todas as vias de comunicação.

                                                  Paulo José Borges


para ouvires a correspondência segue por aqui



domingo, 2 de setembro de 2018

É tudo (ainda assim) tão claro

as minhas rugas
que tu sulcas ainda mais
a minha pele já com esparsos
pigmentos acastanhados
o meu cabelo que cada vez menos
poderás despentear
e o branco que ele me está
desde aqui há atrasado a ficar

o abdómen arrastado
o sorriso amarelado
e a vista
cansada cansada
exaurida se quiseres
que não muda nem por nada


                        Paulo José Borges

domingo, 19 de agosto de 2018

Tem calma


Não entres em pânico
E sobretudo não tenhas medo.

                Paulo José Borges


terça-feira, 14 de agosto de 2018

Contabilidade

Num diário
escreve-se quase sempre
intermitentemente
uma espécie de deve e haver
um exame de consciência
uma conta corrente.
Mas quando não se é bom
a contas
uma pessoa sente-se a perder.

Excessivamente grave seria
porém
tarde demais descobrir
que se é rico a valer.

                          Paulo José Borges

Poema da paciência

a vítima dos sabeus
dos caldeus e da tormenta
tinha sete filhos e
três filhas mas
depois já não os tinha.
rasgou a túnica
cobriu-se de lepra que raspou
com caco de telha
e tinha três amigos
que rasgaram as túnicas e
ficaram sete dias consigo.

depois voltou a ter sete
filhos e três filhas
e duas mais vezes do que tivera
e quatro gerações mais o viram
prosperar.

rasgar as vestes
colar-se ao chão
imitar sementes
e suspender a compreensão?
ou
lançar impropérios, imprecações
antes e depois de O increpar alto e bom som?

voltou a ter sete
filhos e três filhas
e duas mais vezes do que tivera
e quatro gerações mais o viram
prosperar.
é obra, ó Job.


                                        Paulo José Borges

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Clepsidra vedada

de nenhuma espera abdicarei
de nenhuma pergunta por responder
de nenhum enigma por decifrar

de nenhuma espera abdicarei
de nenhum passado que aqui chegar
de nenhum alvo que hei de falhar
de nenhum presente que custe a passar
de nenhum porvir que não cesse de encruzilhar

esperarei no silêncio até quando
for hora de parar até quando
ele for a resposta que tinhas para me dar

de nenhuma espera abdicarei
mas ao menos podias avisar


                             Paulo José Borges


clica aqui para ouvires o silêncio.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Amanhã também é dia

Com um bocadinho de
sorte pode acontecer que
nunca te estragues
que te conserves
que ludibries a oxidação.
É só uma questão de entrares
em modo economia:
ficas em stand-by
suspensão e em casos extremos
hibernação.

(Compreendo bem a perplexidade
com que observas pessoas
que caminham em tapetes rolantes:
como é que é possível
tanto desperdício de energia?)

O ideal era uma redoma
uma bolha protectora
um banho-maria prolongado
que atrasasse a tua
obsolescência programada.

Ou então que por via
de um insondável erro de formatação
pudesses viver para sempre
estagnado
em cinza
congelado.

                                                   Paulo José Borges

áudio aqui.


domingo, 22 de julho de 2018

Poema do tipo interrogativo

sabes que me está a apetecer
muito gostar de ti.

e a querer aprender-te
os cheiros e a que temperatura respira
a tua pele.

e a pretender sincronizar o meu calendário com
o teu e os com passos.

e a desejar ler-te o que resta do
livro da vida que se quiseres
ainda nem sequer começou.

sabes que o teu sorriso contagia
o meu como se tudo fosse.

e que intuo que fomos refeitos
um para o outro.

e que já nem sei pôr o intenso
por extenso
nem como resolver esta estrofe sem refrão.

achas bem.
achas bem.


                                                         Paulo José Borges


ouve aqui com todos os pontos de interrogação.




segunda-feira, 9 de julho de 2018

Poema prêt-à-porter



Como aroma a roupa acabada de estrear
não quero lavar-me de ti.

Só peço que
a tua essência em mim não seja mal
impregnada.



                                 Paulo José Borges

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Eu saio sozinho

não repitas sempre
os mesmos gestos:
é feio.

não dês sempre
os mesmos passos:
ficas a marcá-los.

não escolhas sempre
os mesmos trilhos:
ainda te magoas
encravado.

não ensaies tantas vezes
o mesmo ato:
ao saíres de cena
ninguém tolera
o espalhafato.

                                     
                 Paulo José Borges

clica aqui para ouvires.



quarta-feira, 30 de maio de 2018

Tão certo

tão certo quanto
começar a chover quando
ponderadamente levei
meses a decidir lavar o carro

tão certo quanto
confundirem a minha
desinteressada bondade
com declarada falta de firmeza

tão certo quanto
quem nunca se empenhou
um momento
seja o primeiro a pedir contas

tão certo quanto
conspurcarem imperiosamente
aquilo que acabei de limpar

é o meu amor por ti
tanto quanto o daquela fotografia
onde nos fixámos os dois.


                                                       Paulo José Borges


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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Como nos filmes

Quando apareceste
(até me vem o sorriso aos olhos)
senti-te logo como o calor da
terra quente que nos sai ao
caminho logo pela manhã.

De soslaio meti-te logo
no bolso de dentro e levantei a gola
para me convencer do disfarce.
Tudo ali tinha tudo para ser
um lugar inusitado
mas talvez por isso o teu olhar
se tenha emaranhado todo no meu.
Sim foi por isso que não consegui
desfiar
o olhar.

Mas o grande mistério do mundo
é que quisesses livre e deliberada
vir habitar o meu forro
sem prazo e questionamento.

Levei-te para o meu quarto
de hotel
como nos filmes
onde com pouquíssima roupa
qual conluiada com Vénus (dos amores)
olhavas da janela as ilhas
de gentes lá em baixo (e os rumores).

O que me massacrava as meninges
apertadas em torniquete era a pergunta de
Sophia: que faria eu com a tua inocência?

Virámos entretanto a cidade do avesso
escolhi alcatifas à distância
tirei fotografias de conveniência
e quando tudo podia ter acontecido
porque éramos guardiões do nosso exclusivo
tempo e porque
o que quer que fizéssemos seria justo e certo
fizemos o que nos pareceu justo e certo:
desejámo-nos sorte, coisas boas e
memória eterna.

Depois encontrei-te já de táxi
como nos filmes
saí para o meio da multidão
sussurrei-te ao ouvido um
beijo escarlate e só muito mais tarde
me lembrei do casaco.


                                               Paulo José Borges

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