Quando o Amor vier
E já veio
Abre as portas todas
Do invólucro que habitas
E franqueia o Agora no teu seio.
Paulo José Borges
domingo, 7 de abril de 2019
sábado, 23 de março de 2019
Lição sobre a mágoa
Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.
António Gedeão in Lição sobre a água
Este vazio é a mágoa:
em estado sólido
sem amor
é uma praça maior em Espanha
sem sombra nas esplanadas ao calor.
A mágoa geralmente
embora com exceções
é de etiologia incipiente.
Mas quando se instala
seca tudo à volta
como deserto à depressão normal.
As lágrimas da mágoa
podem ensaiar-se a frio
ou experimentar ao lume
que o resultado é sempre o mesmo:
um silêncio a boiar no negrume.
Paulo José Borges
sábado, 2 de março de 2019
Adoro quando me rotulas
Se não parto um prato
é porque não o parto.
Se falo perco a contenção.
Se calo se vai a ocasião.
Preso por ter cão
que não te pode morder.
Paulo José Borges
é porque não o parto.
Se falo perco a contenção.
Se calo se vai a ocasião.
Preso por ter cão
que não te pode morder.
Paulo José Borges
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019
Canteiro
para a Andreia
Quantas flores têm
os teus amores,
quantas cores?
Quantos risos das crianças dos outros
habituadas a t’abraçar?
Quantos alvéolos dás aos seus ares
quando as inspiras a conta notas?
Do húmus brotam anjos
esvoaçando acrobacias e chilreios,
de melo
dias com que os enfeitas.
Paulo José Borges
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
Para sempre
Morrem-nos pessoas por entre as mãos.
Morrem-nos pessoas como irmãos.
In extremis procuramos o seu resgate
do chão
colhendo os pretéritos mais do que passados para que não se esqueça quem
ainda são.
Restam-nos intermitentes memórias que para sempre perdurarão se ao olvido
Morrem-nos pessoas como irmãos.
In extremis procuramos o seu resgate
do chão
colhendo os pretéritos mais do que passados para que não se esqueça quem
ainda são.
Restam-nos intermitentes memórias que para sempre perdurarão se ao olvido
não adicionarmos ingratidão.
Paulo José Borges
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
Discos perdidos
estão a chegar as festas
as boas
põe-se um vinil à lareira
e deixa-se tocar.
que seja uma coisa da época
que seja uma coisa intemporal.
vira o disco e toca o mesmo
e já se passa pelas brasas.
(depois de farto repasto
vem mesmo a calhar.)
volta-se à infância desde o início
pedindo-se de empréstimo olhos
às crianças deste tempo
e tudo volta a girar.
põe-se um vinil à lareira
e ouve-se o crepitar.
quem gosta dos discos antigos
não sabe explicar.
mas desconfio que é o abraço da agulha
traçando os sulcos que é mesmo
uma lareira a lembrar.
põe-se um vinil à lareira
e tu voltas a estar.
Paulo José Borges
áudio por aqui
as boas
põe-se um vinil à lareira
e deixa-se tocar.
que seja uma coisa da época
que seja uma coisa intemporal.
vira o disco e toca o mesmo
e já se passa pelas brasas.
(depois de farto repasto
vem mesmo a calhar.)
volta-se à infância desde o início
pedindo-se de empréstimo olhos
às crianças deste tempo
e tudo volta a girar.
põe-se um vinil à lareira
e ouve-se o crepitar.
quem gosta dos discos antigos
não sabe explicar.
mas desconfio que é o abraço da agulha
traçando os sulcos que é mesmo
uma lareira a lembrar.
põe-se um vinil à lareira
e tu voltas a estar.
Paulo José Borges
áudio por aqui
domingo, 9 de dezembro de 2018
Estado estacionário
"Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, (...)"
Robert Frost
Sabes que mais:
não gosto nada de encruzilhadas
nem de entroncamentos
e as bifurcações são a língua afiada
das serpentes e não é coisa bonita
de se ver.
As encruzilhadas estão sempre
aí ao virar da esquina, esfíngicas,
aí ao virar da esquina, esfíngicas,
mas com um senão:
os enigmas que nos colocam são só
silêncios. Fazem da mudez interrogação.
As encruzilhadas são encruzilhadas
de encruzilhadas
e isso faz-me toda a indiferença.
e isso faz-me toda a indiferença.
As encruzilhadas são o clima mais
desértico do mundo, por vezes subitamente
pontuado por multas das brigadas de
trânsito que abominam o isolamento
tanto quanto tu e eu.
A linguagem da encruzilhada, se eu a entendesse,
seria quase indecifrável como a caligrafia
de aluno pouco escorado em conhecimento
em dia de teste
com o tempo contado.
com o tempo contado.
Desconfio, não sei se concordas comigo,
que quem entender a língua da encruzilhada
deve ser fluente em desesperanto.
deve ser fluente em desesperanto.
Paulo José Borges
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