quinta-feira, 11 de julho de 2019

Viver de aparências


Sucedia às vezes
à porta da estação de S. Bento
a minha mãe comprar chocolate sucedâneo.

Procediam de Espanha as tabletes 
com vago sabor a cacau
que entravam aos quadrados racionados
no comboio da nossa digestão.

Era uma ficção consentida
uma ensaiada suspensão da incredulidade.
Fazíamos de conta como crianças amestradas
pois representando bem era chocolate suíço.

Ora também Platão nos concebia como
sucedâneos de uma arquetípica criação.
E assim com estes últimos versos extraímos
uma importante lição.


                                                         Paulo José Borges

terça-feira, 2 de julho de 2019

Impasse de dança

o teu silêncio é música
o teu não adivinhado é música
o teu olhar
o teu impossível olhar é música
a tua voz é música
as tuas mãos música são
e bem assim o teu não.

mas o teu corpo é orquestra
nem me importo se ainda não é desta.


                        Paulo José Borges

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Com o Leviatã não se brinca

a minha dor tem sete cabeças
é uma serpente má e insinuosa
as espadas e arpões contra ela nada podem.

a minha dor
nem sei como vos conte
é uma Moby Dick do tamanho de bisonte.

vai mais fundo que o Nautilus
mas quando sente que a cura vem
põe-se a milhas ultramarinas.

o meu dragão marinho
é um monstro ingente,
uma hidra que me governa mas nem sempre.

às vezes lembra o monstro do lago Ness
às vezes esconde-se
às vezes aparece.

                                                Paulo José Borges

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terça-feira, 18 de junho de 2019

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Um dia todos verão

Tu és a minha praia.
Quando chego a ti descalço-me primeiro
Ponho-me à vontade.
Nem em minha casa ando descalço
Mas mais que minha casa
Tu és a minha praia.

É em ti que estendo a toalha ao chão
Desisto de me esconder
Conto-te tudo sem nada te dizer.

Tu és bem a minha praia.
Conheço-te de olhos fechados
Como quem ultra vê à flor da pele
E banho-me de sal, de sol, de ti
Meu protector por inteiro.


                                Paulo José Borges

terça-feira, 28 de maio de 2019

Primeira dica para um jovem poeta

se queres que
a verdade te diga
diz aos que se escandalizam
com a tua dor
magoada ou fingida
(em versos de negrume e de breu)
que se querem esperanças
euforias e flores engrinaldadas
todos os dias
que comam livros
de auto-ajuda às fatias.

           com admiração e estima


                                    Paulo José Borges

domingo, 12 de maio de 2019

Ensino básico



É quando olho para ti
que finalmente entendo por que razão
a Física e a Química
fazem parte da mesma matéria.

                       Paulo José Borges