quinta-feira, 9 de julho de 2020

Homem Invisível

I am an invisible man. [...]
I am invisible, understand, 
simply because people refuse to see me.
             Ralph Ellison, Invisible Man.

o pior insulto que te podem fazer
não é preto nem branco.
a pior traição 
não é a de um agitador de multidão.
(nem sempre a liberdade
é a que pinta mais branco)
a pior vergonha não é a de
te esgueirares por um boeiro.

a pior ofensa é esbarrarem contigo
como se não existisses.
(bitter sweet symphony)
é nesse dia que se perde a cabeça:
(oh me oh life)
a revolta de uma vez por todas
estrondeia e és compelido
a deitares-lhe as mãos ao pescoço
para sufocar a invisibilidade. 

como retirada estratégica é preciso descer à cave
acender uma luz (brilha)
e outra e mais outra. armadilhar
o negrume que há em ti com um longo rastilho 
de fio elétrico ornamentado 
de casquilhos e lâmpadas de filamento
a incandescer cada vez mais o isolamento.

roubar luz descaradamente (brilha) 
à companhia
e polvilhar o teto as paredes o chão
de centenas de cristais de reflexão.

um dia emergirás, não faltará muito,
deste tugúrio, desta câmara ardente
e assomarás à rua visivelmente clarificado.
só receio que com tanta luz tenhas cegado.

                                             Paulo José Borges



Sem comentários:

Enviar um comentário