I am an invisible man. [...]I am invisible, understand,simply because people refuse to see me.Ralph Ellison, Invisible Man.
o pior insulto que te podem fazer
não é preto nem branco.
a pior traição
não é a de um agitador de multidão.
(nem sempre a liberdade
é a que pinta mais branco)
a pior vergonha não é a de
te esgueirares por um boeiro.
a pior ofensa é esbarrarem contigo
como se não existisses.
(bitter sweet symphony)
é nesse dia que se perde a cabeça:
(oh me oh life)
a revolta de uma vez por todas
estrondeia e és compelido
a deitares-lhe as mãos ao pescoço
para sufocar a invisibilidade.
como retirada estratégica é preciso descer à cave
acender uma luz (brilha)
e outra e mais outra. armadilhar
o negrume que há em ti com um longo rastilho
de fio elétrico ornamentado
de casquilhos e lâmpadas de filamento
a incandescer cada vez mais o isolamento.
roubar luz descaradamente (brilha)
à companhia
e polvilhar o teto as paredes o chão
de centenas de cristais de reflexão.
um dia emergirás, não faltará muito,
deste tugúrio, desta câmara ardente
e assomarás à rua visivelmente clarificado.
só receio que com tanta luz tenhas cegado.
Paulo José Borges
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