sábado, 5 de setembro de 2026

Brilha um esgar frio e quedo


Brilha um esgar frio e quedo.

O nevrálgico planeta diminuindo em pequenez

zela por mim na rasgada estepe

e marca tatuagem como carimbo enquanto nele crês.


Será assim que te marcarás sob

brumas na sagrada estepe e permafrost pouco duro.

Ou então não, que o tempo certo não anda.

Anda quieto, o cronológico, de mil e uma noites de Bagdad.

Doidas doidas andam as estações e os apeadeiros no

oposto dos incêndios e das calotes a morrer.


Reabre as comportas da minha sede.

Então, sairei de um grande peixe, o maior de 153,

são e salvo. Chama-me Jonas, Ahab ou David.


Desejo apenas o que me resta: o resto do oco.

Orai, irmãos, por vós e pelos meus escombros sob

batalhas derrotadas, batalhas bastardas, por tão pouco.

Orai, irmãos, por nós todos e por todo o mal,

lodo, pantanal, paul, tudo seco em Rafah.

Hoje, ontem, para sempre uma placa

atestando a desumanidade na avalanche do ódio de

Ontem. 

Dizem que foi só ontem. Hoje já não há.


                                                    © Paulo José Borges

É tudo muito lindo


Já cheguei

Ótimo. Correu tudo bem

Sim. Mas estou muito cansado

É natural

Olha, marcamos um café para um dia destes

Claro, quando quiseres.

Ontem

(Risos) Que apressado. Ainda p'ra mais tens

de descansar.


                          © Paulo José Borges

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Barbitúricos

agora vou dormir
para ver se esqueço os problemas que existem
por todo o lado. os pesadelos
não me metem medo
o que me mete medo é ficar acordado.

já me acobardei que chegue pelo dia 
de amanhã. já repisei que chegue o ontem 
que não há.

vou dormir se a pastilha 
fizer efeito. as que forem precisas
até andar direito.

vou dormir agora que é tarde
senão durmo de tarde amanhã.
(este não rimou.)

dormir cem anos talvez resolvesse 
a questão. viver esta vida 
talvez não mereça perdão.

                           © Paulo José Borges

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Leitura de cabeceira

Senhor, livra-me da literalidade.
Prefiro não entender e que nada me expliquem.

Ensaio uma mão um ombro um peito
um assombro um fulgor um conotativo leito.

                        © Paulo José Borges

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Alívio rápido da alegria

pergunta-me como dormi hoje
diz-me "ânimo" como se eu precisasse muito
sugere que me devo escanhoar assiduamente
(não temer escorregar no chuveiro, por já não ir para novo)
alude à minha falta de cabelo 
raciona-me o café com que me expresso
recorda-me "não te esqueças que"
pergunta-me se vou com o mesmo casaco

conseguiste

                      © Paulo José Borges




terça-feira, 25 de abril de 2023

Intervalo da monotonia das funções

A tua parte era a de esperar
que eu viesse com amor crescente e constante.
A minha parte era de te provar por a + b
que nessa esperança (mesmo que para ti fosse uma espécie de
incógnita) os intervalos não eram de monotonia.

Eu sempre gostei de ti
em mais do que um sentido, incluindo os latos.


                              © Paulo José Borges

terça-feira, 11 de abril de 2023

Será que as gotas já passaram o pombal?


as chuvas frontais não enganam - chocam de frente.
as convectivas gostam é do verão.
as orográficas não deixam de ter relevo.
mas as gotas ainda chovem como Deus as dava?

aparentemente não se precipitam como água a cair de uma fonte:
as da chuva são esféricas e quando engrossam
ficam com olheiras como se estivessem com vontade de chorar.

também sabem juntar-se por coalescência.
e seria tentador imaginá-las a borbulhar em Braga,
(o vaso noturno de Portugal), para depois se evolarem,
rebites de braço dado, caindo a metro quadrado no
tabuleiro superior da Luiz primeiro e depois seguir
como quem ria em Aveiro. Ao chegar a Vila Franca
queria vê-las desabar em frente unida depois de tanta ameaça incumprida
no teu alpendre inesperado.

fosse então a terra despida libertando o petricor.
até que depois os lençóis de água cobrissem a invenção do amor.

                                               
                                                   © Paulo José Borges