segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Barbitúricos

agora vou dormir
para ver se esqueço os problemas que existem
por todo o lado. os pesadelos
não me metem medo
o que me mete medo é ficar acordado.

já me acobardei que chegue pelo dia 
de amanhã. já repisei que chegue o ontem 
que não há.

vou dormir se a pastilha 
fizer efeito. as que forem precisas
até andar direito.

vou dormir agora que é tarde
senão durmo de tarde amanhã.
(este não rimou.)

dormir cem anos talvez resolvesse 
a questão. viver esta vida 
talvez não mereça perdão.

                           © Paulo José Borges

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Leitura de cabeceira

Senhor, livra-me da literalidade.
Prefiro não entender e que nada me expliquem.

Ensaio uma mão um ombro um peito
um assombro um fulgor um conotativo leito.

                        © Paulo José Borges

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Alívio rápido da alegria

pergunta-me como dormi hoje
diz-me "ânimo" como se eu precisasse muito
sugere que me devo escanhoar assiduamente
(não temer escorregar no chuveiro, por já não ir para novo)
alude à minha falta de cabelo 
raciona-me o café com que me expresso
recorda-me "não te esqueças que"
pergunta-me se vou com o mesmo casaco

conseguiste

                      © Paulo José Borges




terça-feira, 25 de abril de 2023

Intervalo da monotonia das funções

A tua parte era a de esperar
que eu viesse com amor crescente e constante.
A minha parte era de te provar por a + b
que nessa esperança (mesmo que para ti fosse uma espécie de
incógnita) os intervalos não eram de monotonia.

Eu sempre gostei de ti
em mais do que um sentido, incluindo os latos.


                              © Paulo José Borges

terça-feira, 11 de abril de 2023

Será que as gotas já passaram o pombal?


as chuvas frontais não enganam - chocam de frente.
as convectivas gostam é do verão.
as orográficas não deixam de ter relevo.
mas as gotas ainda chovem como Deus as dava?

aparentemente não se precipitam como água a cair de uma fonte:
as da chuva são esféricas e quando engrossam
ficam com olheiras como se estivessem com vontade de chorar.

também sabem juntar-se por coalescência.
e seria tentador imaginá-las a borbulhar em Braga,
(o vaso noturno de Portugal), para depois se evolarem,
rebites de braço dado, caindo a metro quadrado no
tabuleiro superior da Luiz primeiro e depois seguir
como quem ria em Aveiro. Ao chegar a Vila Franca
queria vê-las desabar em frente unida depois de tanta ameaça incumprida
no teu alpendre inesperado.

fosse então a terra despida libertando o petricor.
até que depois os lençóis de água cobrissem a invenção do amor.

                                               
                                                   © Paulo José Borges

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Vou escrever-te hoje



vou escrever-te hoje,
hoje terça-feira de carnaval, 
hoje quarta-feira de cinzas, hoje sexta-feira santa,
hoje domingo de páscoa, véspera de natal, 
hoje dia de entradas, ano novo a começar.
hoje que fazes anos no meu dia de aniversário.
hoje de rastos, hoje medianamente em paz,
hoje nunca eufórico.

vou escrever-te hoje no meio das insónias,
hoje que me causas insónias.
hoje aqui ao meu lado 
na cama que desfaço todas as noites 
em guerra com o passado.
hoje diante das tuas lágrimas
diante do teu sorriso e corpo inteiro
encandeante, incandescente, iluminado.

hoje sempre.
escrever-te sempre 
por me teres cegado.


                © Paulo José Borges

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Ou então não

o meu sonho foi sempre o de ter
um automóvel cuja bagageira eu pudesse abrir
com um gesto subtil e que a pudesse fechar
com uma espécie de rasteira
se eu tivesse as mãos ocupadas.

ah, e que no painel de instrumentos
existisse um ecrã que me mostrasse 
os precipícios atrás de mim.

os da frente são tão previsíveis.

                       © Paulo José Borges