Gostava de ser um pássaro.
(Que original!) *
Não desses: um pássaro de gaiola.
Um que o mais acrobático que soubesse
fosse saltar de poleiros assimétricos
e bicar certeiro.
Podia ser canoro, especialmente para
chamar a comida a hora certa,
água refrescada e forro mudado,
como é da mais elementar mordomia.
Mas queria ser um pássaro.
Não conhecer o dono de propósito
só para o irritar.
De conspurcar tudo como manda a lei
do confinamento e da insubordinação.
Gostava de ser pássaro de gaiola;
que me viessem visitar;
que me levantassem o pano
ao início da luz, pontualmente,
e que no fim, ao fechar a cortina,
adormecesse de repente.
Paulo José Borges
* este foi um desabafo irónico de José Gomes Ferreira,
o poeta nascido no Porto em 1900.