domingo, 26 de setembro de 2021

A explicação dos pássaros

Gostava de ser um pássaro.
(Que original!) *
Não desses: um pássaro de gaiola.
Um que o mais acrobático que soubesse
fosse saltar de poleiros assimétricos
e bicar certeiro.
Podia ser canoro, especialmente para 
chamar a comida a hora certa, 
água refrescada e forro mudado, 
como é da mais elementar mordomia.
Mas queria ser um pássaro.
Não conhecer o dono de propósito
só para o irritar.
De conspurcar tudo como manda a lei 
do confinamento e da insubordinação.

Gostava de ser pássaro de gaiola;
que me viessem visitar;
que me levantassem o pano 
ao início da luz, pontualmente,
e que no fim, ao fechar a cortina, 
adormecesse de repente.

                             Paulo José Borges

* este foi um desabafo irónico de José Gomes Ferreira,
o poeta nascido no Porto em 1900.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Chuva cadente



Sou feito de chuva
desde que me lembro.
Chegava à vidraça fechada
e via-a cair certinha, mas não gostava da puxada a vento.
Chovia muito naquele tempo
e as gotas da vidraça traçavam caminhos e rastos,
juntando-se a outras, formando breves coágulos benignos.
E eu chovia-me todo ali como que despido.
Nesse tempo, não aproveitava o ensejo para chorar,
nem sequer tentava entender. Eu era só
água a correr.
 
Um dia fui ver o início de borrasca lá longe sobre a ponte.
Raios e relâmpagos quase a coincidir na intensidade e 
no sincronismo; bem perto quando isto acontece,
como se sabe. Mas no portal da ilha eu sentia-me
no limiar de um segredo.
 
Um dia, bem crescido, fiz mais. Andei horas debaixo de
chuva certinha e morosa. Não temi o resfriado, 
o castigo de Deus, ou pior: 
da minha mãe o mais severo ralhar.
(Não sei explicar a felicidade desse dia.
Quem a quiser saber leve botas.)
Mas não houve repreensão ou ensaboadela.
Melhor do que ninguém ela sabia que eu
sou feito de chuva.
Se às vezes choro é só para devolver um pouco
do que ela tão abundantemente me deu.


                                             Paulo José Borges