Sou feito de chuva
desde que me lembro.
Chegava à vidraça fechada
e via-a cair certinha, mas não gostava da puxada a vento.
Chovia muito naquele tempo
e as gotas da vidraça traçavam caminhos e rastos,
juntando-se a outras, formando breves coágulos benignos.
E eu chovia-me todo ali como que despido.
Nesse tempo, não aproveitava o ensejo para chorar,
nem sequer tentava entender. Eu era só
água a correr.
Um dia fui ver o início de borrasca lá longe sobre a ponte.
Raios e relâmpagos quase a coincidir na intensidade e
no sincronismo; bem perto quando isto acontece,
como se sabe. Mas no portal da ilha eu sentia-me
no limiar de um segredo.
Um dia, bem crescido, fiz mais. Andei horas debaixo de
chuva certinha e morosa. Não temi o resfriado,
o castigo de Deus, ou pior:
da minha mãe o mais severo ralhar.
(Não sei explicar a felicidade desse dia.
Quem a quiser saber leve botas.)
Mas não houve repreensão ou ensaboadela.
Melhor do que ninguém ela sabia que eu
sou feito de chuva.
Se às vezes choro é só para devolver um pouco
do que ela tão abundantemente me deu.
Paulo José Borges
Sem comentários:
Enviar um comentário