sábado, 9 de dezembro de 2017

Primeiro poema do que podia ter sido

Hoje almocei contigo mesmo que não pudesses vir, 
ou, mesmo que não pudesses ter vindo. Tentei dizer-te 
que vinha almoçar contigo, tentei convidar-te, 
mas eu não sei se estava.

E viemos, então, até junto ao mar que tu amas 
pelo menos tanto como a mim. E deixámo-nos estar 
mergulhados um no outro. Molhámo-nos de lágrimas 
que são colírios da alma e que lavam tudo limpidamente. 
E falámos muito. Com os olhos. 
Que sabem as línguas todas e que 
são sempre pentecostes do que se sente cá dentro.

Houve uma luz intensa que desafiou com sucesso a do sol, 
e a fina névoa cobriu-nos os beijos. 

Só não te agradeço o teres vindo, porque sei que mo levavas a mal.

                                                     
                                            Paulo José Borges


2 comentários:

  1. Um encontro feito de ausência? Quem é que não estava? O sujeito, o objecto, ambos (eu não sei se "estava")?
    Imagem soberba a da névoa que cobre os beijos que não se partilharam.
    Absolutamente inédita a frase com que o termina.
    Arrebatador Paulo.

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    1. obrigado. eram outros tempos. até o possível era impossível ou vice-versa.

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