de quem te quero.
Saio da cama e de pé dói-me um joelho -
- ainda assim tenho a certeza de que
te venero.
É só quando faço as minhas abluções
que tudo vai pela ensaboada água abaixo:
a cor de prata antes do vidro
revela-me um vetusto cavalheiro
cruzamento de velho Adamastor e de Restelo...
É nessa altura que os sacos lacrimais
derramam sódio e água: aproveito-os
para remover as remelas.
Muita água correu já por debaixo da ponte;
poucos sorvos foram meus.
Pior, toda a água secou. As alterações climácicas...
Ficou uma ponte monumento entre duas margens
de um caudal que agora passo a vau.
(Nem Estige nem Caronte, suprema ironia.)
No leito do ancestral rio
nem resto de água nem ponta de humidade.
Tudo isto porque te amo e (me) ignoras.
Mas um dia, se quisesses, como menina de pá
e balde junto à praia, ias ao grumoso leito do rio,
raías a sua crosta esfacelada e verias um mar
à espera da tua chamada.
Paulo José Borges
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