sábado, 1 de agosto de 2020

Dactylographia

Amor lindo,

QWERTY muito. Sinto a falta de trocar 
umas letras contigo ou de inversamente
olhos nos olhos perceber-te nas entrelinhas.

QWERTY fAZERTY coisas cá minhas.
Mas é melhor passar tinta branca nesta frase
cheia de fitas. (Carreto até ao fim, plim, tabulador)

QWERTY DVORAK; pronto, já disse.

Antes que trilhe os dedos e a língua
deixo-te um beijo a papel químico
do que demos no outro dia.

Do teu e sempre teu,

                 HCESAR



P.S.: Paulo José Borges

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Homem Invisível

I am an invisible man. [...]
I am invisible, understand, 
simply because people refuse to see me.
             Ralph Ellison, Invisible Man.

o pior insulto que te podem fazer
não é preto nem branco.
a pior traição 
não é a de um agitador de multidão.
(nem sempre a liberdade
é a que pinta mais branco)
a pior vergonha não é a de
te esgueirares por um boeiro.

a pior ofensa é esbarrarem contigo
como se não existisses.
(bitter sweet symphony)
é nesse dia que se perde a cabeça:
(oh me oh life)
a revolta de uma vez por todas
estrondeia e és compelido
a deitares-lhe as mãos ao pescoço
para sufocar a invisibilidade. 

como retirada estratégica é preciso descer à cave
acender uma luz (brilha)
e outra e mais outra. armadilhar
o negrume que há em ti com um longo rastilho 
de fio elétrico ornamentado 
de casquilhos e lâmpadas de filamento
a incandescer cada vez mais o isolamento.

roubar luz descaradamente (brilha) 
à companhia
e polvilhar o teto as paredes o chão
de centenas de cristais de reflexão.

um dia emergirás, não faltará muito,
deste tugúrio, desta câmara ardente
e assomarás à rua visivelmente clarificado.
só receio que com tanta luz tenhas cegado.

                                             Paulo José Borges



domingo, 5 de julho de 2020

Se um poema bastasse

Se um poema bastasse
começaria com uma paisagem
semeada de socalcos, povoada de
amendoeiras, oliveiras e vinhas.
Uma inteira paisagem de se fechar os olhos
para a guardar na vista.
(Um banco de imagens para mais tarde
em S.O.S. usar .)

Verias o silêncio estender-se leitoso
como a estrada de Santiago à noite 
- uma imensa praia de estrelas -
por cima das cabeças (de cabelos contados)
dando a volta à terra.

Verias o silêncio sim também de dia
e alimentar-te-ias dele
nem que por vezes o nó na garganta te
queimasse dentro os rumores de agitação
em movimento.

Seguir-se-iam versos de apaziguamento
de abandono de tudo o que te pesa, e atrasa,
e enreda, e trama.
E se isto fosse bem feito, aqui chegada, não pedirias nada.
Não perguntarias nada. (Só se estivesses doente.)
Aceitarias apenas as carícias do sol,
o arrepio breve da brisa, o rumor de
montes, vales, planícies,
árvores, flores, ervas,
rios e pedras e de tudo o que existe e não sabe que existe
porque assim está certo e ponto final.

[Parágrafo]

Se o poema não servisse 
então o modo seria completamente outro
- olhar para dentro e olhar para o espelho que os outros são -
No centro encontrarás o cerne, 
nos outros a bondade que lhes dás, a alegria, a vibração, 
a dança, o abraço que revigora, o sorriso, o riso solto e nítido,
a comunhão que lhes ofereces.

E logo adiante, depois da curva da estrada, 
os rios correm, o sol aquece,
a brisa refresca, o verbo conjuga-se em todos 
os tempos, em todos os modos, em todas as pessoas.
Ámen.


                                                             Paulo José Borges





quarta-feira, 20 de maio de 2020

Tanto se me dá

hoje podia muito bem ser sábado
mas não, é quarta,
o que me dá igual
é mais um freguês para juntar ao rol.

mas era importante saber se hoje
posso dormir até mais tarde
mas na verdade é igual
acordo tanto a meio da noite da semana
como mais perto do fim.

alguém me virou o dia do avesso
como os pobres faziam à roupa de vir à rua.
durmo aos remendos nas cotoveleiras
durmo cerzido nos fundilhos do lençol.

durmo uma miséria.
(durmo aos caídos como pedinte
sem acordeão).

se dormisses comigo, meu corpo,
era uma esmola que me fazias.
continuaria a ser quarta ou sábado
do mês e ano que fosse 
mas ao menos teria um dia inteiro
para contemplar, fresco como uma alface,
as vendedeiras a apregoar peixe
fingidamente vivo ao sol.


                                                Paulo José Borges


segunda-feira, 4 de maio de 2020

Mas agora

quando não tinha microondas
não me fazia falta nenhuma.

quando não tinha telemóvel
não me fazia falta nenhuma.

quando não tinha aquecimento central
não me fazia falta nenhuma.

quando não tinha carro
não me fazia falta nenhuma.

quando não te tinha
não me fazias falta nenhuma


                                     Paulo José Borges

sábado, 25 de abril de 2020

Four / Twenty Five (esboço #46)

Abril encarnou na praça
uma canção cravejada de flores
e o povo saiu à rua
de lágrimas em punho.

O momento respirou fundo a ganhar tempo
e acordaram todos felizes para sempre.


                                     Paulo José Borges

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Sweet little fifteen

para a menina J.                       
Foi ontem. Foi só ontem.
Foi agorinha.
Nove meses não te chegaram
Querias mais e re-voltaste-te até
Que te prendeste umbilicalmente.

E depois lá fomos o mais depressa possível
E muito devagar
Para tudo a bom Porto chegar.

E chegaste agora, minha querida.

Foi gente a mais no quarto
Eu sei, mas eras tu
E isso era notícia irresistível.

Um bocadinho antes de hoje
Tomei conta de ti sozinho como se
Soubesse tudo do que precisavas
E brincámos muito a tudo o que nos apeteceu
Como se soubéssemos o que nos queríamos.

No início de hoje, o teu dia, (daqui a nada é futuro),
Desejo que vás o mais depressa possível a onde tens de ir
Mas muito devagar.

Crescer é cresceres toda ao mesmo tempo
Sem pressa do tempo chegar.


                                                 Paulo José Borges