quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Sweet little fifteen

para a menina J.                       
Foi ontem. Foi só ontem.
Foi agorinha.
Nove meses não te chegaram
Querias mais e re-voltaste-te até
Que te prendeste umbilicalmente.

E depois lá fomos o mais depressa possível
E muito devagar
Para tudo a bom Porto chegar.

E chegaste agora, minha querida.

Foi gente a mais no quarto
Eu sei, mas eras tu
E isso era notícia irresistível.

Um bocadinho antes de hoje
Tomei conta de ti sozinho como se
Soubesse tudo do que precisavas
E brincámos muito a tudo o que nos apeteceu
Como se soubéssemos o que nos queríamos.

No início de hoje, o teu dia, (daqui a nada é futuro),
Desejo que vás o mais depressa possível a onde tens de ir
Mas muito devagar.

Crescer é cresceres toda ao mesmo tempo
Sem pressa do tempo chegar.


                                                 Paulo José Borges

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

domingo, 3 de novembro de 2019

Sete vezes te amei minha cidade

Sete vezes te amei minha cidade
Primeiro foi a sofreguidão das conquistas
Procurei os teus lugares mais óbvios
Os de que tinha ouvido falar
E visto em fotos de revistas.

Da segunda vez já fui reconhecendo
Os recantos os tranquilos lugares
Depois de percorrer as avenidas apressadas
Parando em pedaços de pele
Em cotovelos em praças
E passagens estreitas entre duas almofadas.

Das vezes seguintes já havia os lugares
Eleitos as paragens obrigatórias
As bebidas lentamente saboreadas
Como de pão para a boca.
E tu foste ficando cada vez
Menos estrangeira minha via sinuosa
Tão estendida à minha beira.

Das últimas vezes não esqueci
Os teus lugares eleitos, mas surpreendi
Rugas em monumentos repetidamente cartografados
Transformaste-te em urbe menos luminosa
E as sombras foram espalhando pequenos
Presságios no mapa já cheio de vincos manuseados.

Foi por isso que à sétima vez
Gravei tudo nas minhas objetivas instantâneas
Para depois minha cidade te erguer
Este monumento em miniatura
Que devotadamente coloquei numa prateleira
Junto a um livro de uma velha aventura.


                                      Paulo José Borges




quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Também eu fui feliz para sempre

Sim
Às vezes com o indicador e
O polegar da mão direita
Procuro a aliança
No anelar da esquerda

Sim
Tento rodá-la como antigamente
Mas não acontece nada
(Já lá não está)

Sim
E depois


                                    Paulo José Borges




domingo, 13 de outubro de 2019

Não é fácil ser eu

Um dia fui horrivelmente mau.
Foi só uma vez
mas marcou-me profundamente.

Fui tão horrivelmente mau
que apaguei o erro da minha memória
já nem sei o que foi.

Vou ter de aprender a viver com isto.


                          Paulo José Borges

terça-feira, 10 de setembro de 2019

O problema da habitação

diz-me onde moro
por favor, não estou a brincar.

eu olho para as paredes impermeáveis de árvores
para o chão de erva que grassa
para o céu que se evade constelado das cidades
e não reconheço o caminho.

diz-me onde moro
onde habito
onde resido
onde é o meu lar.

se eu soubesse podias ser minha na
morada.


                                         Paulo José Borges

sábado, 24 de agosto de 2019