quinta-feira, 9 de julho de 2020

Homem Invisível

I am an invisible man. [...]
I am invisible, understand, 
simply because people refuse to see me.
             Ralph Ellison, Invisible Man.

o pior insulto que te podem fazer
não é preto nem branco.
a pior traição 
não é a de um agitador de multidão.
(nem sempre a liberdade
é a que pinta mais branco)
a pior vergonha não é a de
te esgueirares por um boeiro.

a pior ofensa é esbarrarem contigo
como se não existisses.
(bitter sweet symphony)
é nesse dia que se perde a cabeça:
(oh me oh life)
a revolta de uma vez por todas
estrondeia e és compelido
a deitares-lhe as mãos ao pescoço
para sufocar a invisibilidade. 

como retirada estratégica é preciso descer à cave
acender uma luz (brilha)
e outra e mais outra. armadilhar
o negrume que há em ti com um longo rastilho 
de fio elétrico ornamentado 
de casquilhos e lâmpadas de filamento
a incandescer cada vez mais o isolamento.

roubar luz descaradamente (brilha) 
à companhia
e polvilhar o teto as paredes o chão
de centenas de cristais de reflexão.

um dia emergirás, não faltará muito,
deste tugúrio, desta câmara ardente
e assomarás à rua visivelmente clarificado.
só receio que com tanta luz tenhas cegado.

                                             Paulo José Borges



domingo, 5 de julho de 2020

Se um poema bastasse

Se um poema bastasse
começaria com uma paisagem
semeada de socalcos, povoada de
amendoeiras, oliveiras e vinhas.
Uma inteira paisagem de se fechar os olhos
para a guardar na vista.
(Um banco de imagens para mais tarde
em S.O.S. usar .)

Verias o silêncio estender-se leitoso
como a estrada de Santiago à noite 
- uma imensa praia de estrelas -
por cima das cabeças (de cabelos contados)
dando a volta à terra.

Verias o silêncio sim também de dia
e alimentar-te-ias dele
nem que por vezes o nó na garganta te
queimasse dentro os rumores de agitação
em movimento.

Seguir-se-iam versos de apaziguamento
de abandono de tudo o que te pesa, e atrasa,
e enreda, e trama.
E se isto fosse bem feito, aqui chegada, não pedirias nada.
Não perguntarias nada. (Só se estivesses doente.)
Aceitarias apenas as carícias do sol,
o arrepio breve da brisa, o rumor de
montes, vales, planícies,
árvores, flores, ervas,
rios e pedras e de tudo o que existe e não sabe que existe
porque assim está certo e ponto final.

[Parágrafo]

Se o poema não servisse 
então o modo seria completamente outro
- olhar para dentro e olhar para o espelho que os outros são -
No centro encontrarás o cerne, 
nos outros a bondade que lhes dás, a alegria, a vibração, 
a dança, o abraço que revigora, o sorriso, o riso solto e nítido,
a comunhão que lhes ofereces.

E logo adiante, depois da curva da estrada, 
os rios correm, o sol aquece,
a brisa refresca, o verbo conjuga-se em todos 
os tempos, em todos os modos, em todas as pessoas.
Ámen.


                                                             Paulo José Borges