segunda-feira, 26 de julho de 2021

Caminho imperfeito

Não sou boa companhia para caminhar contigo.

Mas quem senão tu com mais descrença
Quem senão tu com mais dúvidas
Quem senão tu que quanto mais lhe explicam menos entende
Quem senão tu que mais pense no passado e no futuro do que no presente
Quem senão tu que quando as coisas parecem más as consegue imaginar piores?

Mas para que quererás tu alguém assim?

Porque és tu que estás aqui.

 

                                     Paulo José Borges

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Santa Inocência

Tenho tantas saudades
de quem um dia achei que ia ser.

Que coisa mesmo infantil.


                      

                              Paulo José Borges



sexta-feira, 9 de julho de 2021

[What lies beneath]

Longe do espelho tenho certeza
de quem te quero.
Saio da cama e de pé dói-me um joelho -
- ainda assim tenho a certeza de que
te venero.
É só quando faço as minhas abluções
que tudo vai pela ensaboada água abaixo:
a cor de prata antes do vidro
revela-me um vetusto cavalheiro
cruzamento de velho Adamastor e de Restelo...
É nessa altura que os sacos lacrimais
derramam sódio e água: aproveito-os
para remover as remelas.

Muita água correu já por debaixo da ponte;
poucos sorvos foram meus.
Pior, toda a água secou. As alterações climácicas...
Ficou uma ponte monumento entre duas margens
de um caudal que agora passo a vau.
(Nem Estige nem Caronte, suprema ironia.)
No leito do ancestral rio
nem resto de água nem ponta de humidade.
Tudo isto porque te amo e (me) ignoras.

Mas um dia, se quisesses, como menina de pá
e balde junto à praia, ias ao grumoso leito do rio,
raías a sua crosta esfacelada e verias um mar
à espera da tua chamada.

                               Paulo José Borges