terça-feira, 26 de outubro de 2021

Os tempos e os modos

Há pretéritos perfeitos pontuais e terminados.
Há os imperfeitos que te serviam para
descrever hábitos no passado.
Há os mais-que-perfeitos, que 
compostos de auxiliar são os mais fáceis 
de fazer com o particípio do passado.
Há o presente simples que fala do que
se costuma fazer, das instruções,
das verdades universais,
o que por vezes é histórico.
E há o futuro simples, que não existe, 
dir-me-ás tu, em mesóclise, com toda a razão.

E depois há os modos.
O indicativo, que acabei de ilustrar,
o conjuntivo e o condicional, cheios de (im)
possibilidades e de dúvidas existenciais.
Olha, mas sabes o que te digo?
O que era imperativo era flexionar 
o infinitivo pessoal contigo.

                            Paulo José Borges

domingo, 17 de outubro de 2021

Indignação

Quem disse que o que não nos mata 
nos faz mais fortes?
Quem disse que se aprende com os erros?
Quem disse que a dor será recompensada?
Quem disse que a solidão enrijece?
Quem disse que mais vale estar só
do que mal acompanhado?
Quem disse que pedras do caminho?...

Hipócritas. Mais fortes em quê?
Se eu partir um osso em duas ocasiões diferentes
à terceira não quebra?
Eu nunca aprendi com nenhum erro;
volto a cometê-los com cada vez mais firme 
convicção no Pai Natal.
A dor será compensada. Isso sim. Quando
tenho uma unha encravada, se me doer um dente,
esqueço o dedo.
Não aprendi nada; caio sempre na esparrela.
Quando tomo uma decisão ponderada sai sempre furada.
A solidão não tem solução. Não se dissolve:
engana-se como ao estômago com côdeas de pão.
Cada vez percebo mais quem tem gatos.
Cães não, que, ladrando, perfuram inclementemente
a solidão dos vizinhos.
Foi Drummond quem falou da pedra no caminho.
E é muito provável que a tenha carregado toda a vida.
Pedras só para pisa-papéis ou artesanato.
(Embora demasiado tentadoras para atirar aos cães.)
Tenham vergonha. Não mintam às crianças.
Não há mal que sempre dure.......
Pois não, para alguma coisa serve a anestesia
e a couraça.
O Bem, se vier, não se conta, não se monta
como belíssimo templo que não se pode habitar.
O Bem, se vier, só se quer sentar.

                  © Paulo José Borges