quarta-feira, 26 de abril de 2017

Poema do hic et nunc

                                                                       para o Rui

Acordas, saltas da cama e logo uma 
parte de ti
ficou dentro do quarto.

Sais a correr aos pedaços, comes pelo caminho aos bocados,
entras para o comboio, as portas trancam-se e
parte de ti
ficou no cais.
(Esta até a mim me doeu).

Fragmentas-te no sono, enquanto dormitas no trajecto, mas
parte de ti
ficou pendurada na rapariga que, por incrível que pareça,
estava a ler um livro.

Chegas ao trabalho, mas
parte de ti
foi lá ter, a meter a fralda p´ra dentro, 
com a barba por fazer.

..........................................................

Regressas. A tua voz ficou lá para trás;
não te trouxeste todo.
Avançaste o dia inteiro a mais de 24 frames 
por segundo.
Não te admires se ao espelho deres conta 
de te faltarem não sei quantos píxeis.

Ainda não acabaste de chegar.
Parte de ti                     ficar.


                                                                     Paulo José Borges

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4 comentários:

  1. É incrível a forma como nos impele a viajar consigo Obriga-nos a acompanhar essa sua metade que chega ao destino e a ficarmos presos aos pedaços que vai deixando para trás Rematou-o de forma brilhante Um ritmo fabuloso Genial!

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    1. este texto foi me "ditado" por um amigo. um irmão. palmas para ele.

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  2. Ao ler o teu livro "Laranjas frescas como uma alface", vejo-te como um autor que faz da leveza uma forma de pensar o amor, o tempo e o próprio ato de escrever. A matéria é quotidiana – consultas, teclados, comboios, faxes, a chuva – mas o modo como tudo se articula cria uma espécie de sobressalto manso, em que o riso e o incómodo caminham lado a lado. A ironia surge com subtileza, como um casulo em que se embrulham a vulnerabilidade e o desejo.
    O “Poema do até sempre” desvenda, em poucas linhas, um poeta-cineasta cheio de interioridade: longas metragens mentais, guião, lacunas preenchidas com ficção, até ao “fade out” final que recusa a tentação do drama prolongado. A economia do fecho é abrupta e liminar, como se fosse uma censura à tua delicada mente poética.
    Os teus poemas têm sabor a solidão, a memórias, a detalhes que escapam aos olhares prosaicos. Escreves um catálogo de modos de comunicar em “Poema do Father Mckenzie”, das SMS ao código Morse, para nos lembrares, com a tua maneira muito própria de admitir fragilidade, que a ironia nos salva da crueza e da surdez do mundo
    No teu “Projeto de interiores” recusas a coreografia convencional da morte – carpideiras, flores – em favor de uma compostagem quase etérea, que devolve o corpo à terra com a humildade de quem valoriza apenas experiências vividas, e não quer saber dos bens terrenos. Não falta a pontinha de humor ácido, a critica social no ápice de um trocadilho certeiro!
    Por baixo desta superfície brincada percebe‑se a tua consciência aguda da precariedade -- muito nítida, por exemplo, no modo como o corpo e o tempo são tratados. “Poema do hic et nunc” parte de um gesto banal – levantar‑se, apanhar o comboio, ir trabalhar – para revelar a experiência de não chegar nunca inteiro, de perder “píxeis” que se espalham pelo mundo, como se o cansaço nos fragmentasse ao ritmo do poema – que também perdeu as palavras finais.
    E, evidentemente, poemas de amor não faltam... Distinguem‑se por uma tensão entre o impulso e a arte de recuar meio passo. “Poema escancarado” encena um discurso de negação (“Não te sentes ao meu lado / Não me sorrias não me abraces”) que, a cada proibição, só confirma a intensidade do desejo e da mágoa, culminando no verso em que te “abalas todo”. No “Memorial”, o teu perfil acende-se na contenção do desejo; és “um menino bem mandado, em turbilhão”.
    Dominas notavelmente o ritmo e a enumeração: gostas de testar até onde podes esticar uma imagem, como se cada sinónimo, cada variação, adiasse um instante a apoteose. Em “Poema fechado à chave”, a sucessão de modos de atravessar a porta é também o escalar progressivo de todas as maneiras possíveis de irromper na (vida da) pessoa certa. O efeito não é decorativo: é uma expressão do frágil equilíbrio entre a coragem e a inércia.
    Prescreves-te com humor em “Princípio Ativo”, mas eu diria que a tua bula é nebulosa, a posologia esparsa, os efeitos secundários difíceis de prever… Em “Dactylographia” o desejo é evidente, disfarçado de sequências de teclas previsíveis, uma entoação que se assemelha às palavras reais, assinadas porém, não por ti, mas por um teclado ultrapassado!
    No conjunto, a tua poesia habita um raro equilíbrio entre inteligência e afeto. A linguagem é suficientemente afiada para desmontar o narcisismo de quem pretensamente te quer ajudar (“Poema em mim menor”) ou a saturação das mensagens, mas suficientemente porosa para deixar passar uma ternura quase distraída, como quem não queria, mas deixou escapar.
    Dito isto, os segredos semeiam cada um dos teus poemas, que se dirigem a um “tu” que nunca vemos por inteiro.
    Como todos os poemas do teu livro têm uma identidade única, uma ideia nuclear, consigo ouvi-los por entre os dias, quando os acontecimentos os evocam, ou quando “andei horas debaixo de chuva certinha e morosa”. E, “como águas declinadas de montanhas voadoras” (“Eternal Sunshine…”), tenho a certeza de que outros aguardam ansiosamente nos teus dedos.
    Fico à espera no horizonte.

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  3. Muito obrigado por esta magnífica e minuciosa leitura. Gostaria até que ela fosse publicada em espaços como o goodreads ou assim. Porém, não consigo contactá-la com mais pormenor por esta via. Peço-lhe que envie email para paulojoseborges.escritor@gmail.com Muito obrigado mesmo.

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